[5 Indicações] Cineastas inovadoras

2012 - mar Postado por Pietro Milan e Bruno Colli Nenhum comentário

O mundo da música possui diversas cantoras, ainda que muitas delas sejam artistas estritamente comerciais, e infelizmente, talvez pela baixa divulgação ou pelo sexismo da indústria, é difícil (mas não impossível) ver álbuns de mulheres em listas de “melhores discos de todos os tempos” por aí, independente da qualidade das artistas. No cinema acontece algo parecido; algumas mulheres foram responsáveis por grandes obras sejam experimentais ou mainstream, mas o reconhecimento é bem baixo. Mesmo entre grandes conhecedores da sétima arte, é raro ver nomes femininos entre os melhores e mais influentes diretores que já existiram. Essa lista compila algumas das cinco diretoras que fizeram trabalhos grandiosos e que merecem ser reconhecidas. A lista não será enumerada e não está em ordem de preferência.


JANE ARDEN

O nome verdadeiro dessa diretora galesa era Norah Patricia Morris. Ela nasceu em 1927 e iniciou sua carreira, inicialmente como atriz, no final dos anos 40, após ter se formado na Royal Academy of Dramatic Art (RADA), em Londres. Após co-escrever alguns trabalhos para TV e teatro, Jane estreou seu primeiro roteiro para o cinema em 1968, quando escreveu e atuou no filme Separation, dirigido por Jack Bond. Nesse período, Arden ficou conhecida entre o movimento feminista por suas obras experimentais e anti-machistas.

Em 1970, Arden formou o grupo de feministas radicais do teatro Holocaust e escreveu uma peça chamada O Holocausto, que posteriormente foi adaptada para o primeiro filme inteiramente dirigido pela própria artista, The Other Side of the Underneath, onde também atuou. O filme, que não creditou a participação da própria Jane Arden, causou uma enorme polêmica ao ser exibido em festivais de cinema, pela representação perturbadora de uma mulher tendo seu estado psicológico destruído e por suas cenas chocantes de nudez e violência, mas foi considerado um enorme marco do cinema britânico – até por ser o único (vejam bem, o único) filme do cinema do Reino Unido lançado nos anos 70 a ser dirigido inteiramente por uma mulher.


Cena de The Other Side of the Underneath (1972)

O próximo filme dirigido por Arden, Vibration, de 1974, contou com a colaboração de Jack Bond, que havia dirigido a artista em Separation, e foi descrito pela crítica como um exercício de meditação acompanhado de técnicas de vídeo e imagens experimentais. Já o futurista Anti-Clock, lançado em 1979 e novamente contando com Bond como co-diretor, teve como trilha sonora canções escritas pela própria diretora. Nessa época, ela já havia abandonado o feminismo radical para apoiar a causa de um mundo livre de tirania e opressão, independente de raça, religião ou sexo.


Cena de Anti-Clock (1979)

Jane Arden suicidou-se no dia 20 de dezembro de 1982, aos 55 anos. Três de seus filmes – Separation, The Other Side of the Underneath e Anti-Clock – foram relançados em DVD e Bluray em 2009, mas suas poesias e livros nunca foram republicados.


MARGUERITE DURAS

Nascida em Gia Dinh, na então Indochina Francesa, atual Vietnã, no ano de 1914, Marguerite Duras se mudou para França, terra de seus pais, aos 17 anos, onde estudou Direito e Ciências Políticas e revolucionou a literatura e o cinema. “Não sei se descobri o cinema. Sei que o fiz. Para os profissionais meu cinema não existe”, dizia. A obra cinematográfica de Marguerite Duras está entre as mais extraordinárias e desvalorizadas experiências artísticas do século vinte. Do roteiro de Hiroshima mon Amour, de Alain Resnais, às obras primas India Song, Nathalie Granger, Son nom de Venise dans Calcutta désert, Le camion, e a dupla Aurélia Steiner (Melbourne e Vancouver).

Para Duras, não existe nada verdadeiro se não está escrito. A escritura é uma dimensão da memória e, alternadamente, uma se alimenta da outra. Memória e escritura, o desafio da obra de Marguerite Duras se choca com sua própria possibilidade: dizer o que a memória impede de dizer (e escrever). Recordar o que não está escrito e, portanto, precisa ser escrito, dando vida a um incessante processo de escritura e reescritura. Escritura para outros autores (Hiroshima mon amour), reescritura de outros autores (Henry James, William Gibson), reescritura da própria obra: toda a produção literária de Duras é a reescritura do próprio texto infinitamente.


Cena de Nathalie Granger (1972)

Os vários festivais Duras organizados em todo mundo atraíram a atenção de um número inesperado de espectadores para um cinema que até então era considerado patrimônio cultural de uma restrita elite intelectual. Perguntava-se porque tanto interesse em uma diretora de origem literária que contaminava o cinema até despi-lo completamente de seus atributos clássicos (a ação, a interpretação, os movimentos de câmera, a edição) para transformá-lo em uma linguagem totalmente particular. Uma linguagem que se distinguia do próprio “cinéma différant” (demoninação que se usava na França para para reagrupar toda produção que estava fora dos cânones do cinema industrial). O cinema de Duras de fato não possuía as características do cinema marginal nem do exasperado exercício técnico do cinema do casal Straub-Huillet. O seu era um cinema de autor que colocava em discussão os fundamentos da linguagem cinematográfica para criar um cinema que vai muito além de simplesmente inventar novas regras.


Cena de India Song (1975)

Marguerite Duras morreu em 1996, aos 81 anos, vítima de câncer. Escreveu 34 romances e dirigiu 16 filmes.


CHANTAL AKERMAN

Nascida na Bélgica em 1950, Chantal Akerman decidiu tornar-se cineasta ao assistir Pierrot le fou (O Demônio das Onze Horas), do aclamado diretor franco-suíço Jean-Luc Godard, aos quinze anos de idade. Vinda de família judia, seus avós e sua mãe foram mandados para Auschwitz durante a Segunda Guerra, mas somente sua mãe retornou. A ansiedade e o desespero de sua mãe inspiraram diversas obras posteriores de Akerman.

Aos dezoito anos, ingressou no Institut National Supérieur des Arts du Spectacle et des Techniques de Diffusion, uma escola belga de cinema, mas abandonou no primeiro ano, para em seguida rodar seu primeiro curta metragem, Saute ma ville, rodado em 35 e ineiramente em preto e branco. Em 1971, ano em que seu curta foi apresentado no Festival de Curtas de Oberhausen, Akerman mudou-se para Nova Iorque, onde viveu durante um ano. Ao retornar para a Bélgica, Chantal dirigiu e atuou em seu primeiro longa, Je tu il elle (Eu, Tu, Ele, Ela). Chantal interpretou em seu filme a protagonista Julie, entediada, impulsiva e sozinha em seu apartamento, aonde escreve cartas para alguém desconhecido e posteriormente encontra-se com um motorista de caminhão e com sua amante. Sim, sua amante. Je tu il elle foi um dos primeiros filmes a mostrar sexo explícito entre lésbicas, onde também inovou por não demonstrar a cena de forma característica do voyeurismo masculinos, mas sim do ponto de vista das mulheres. Homossexual assumida, a diretora tomou o máximo de cuidado possível para não transformar a cena em simples material de pornografia para homens.


Cena de Jeanne Dielman (1975)

Mas foi seu filme seguinte, Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles (conhecido somente por Jeanne Dielman no Brasil), que tornou o nome de Chantal Akerman reconhecido entre a crítica especializada e os admiradores de cinema. Com mais de três horas de duração, o filme narra a história da personagem que dá nome ao filme, Jeanne Dielman (interpretada por Delphine Seyrig), mãe solteira e prostituta, e sua rotina diária durante três dias de sua vida. O filme tem uma abordagem bem pouco convencional, evitando a dramatização das ações e confiando apenas em seus longos takes para demonstrar (ou deixar implícitas) as emoções da personagem. Jeanne Dielman quebrou conceitos estabilizados na narrativa cinematográfica, e foi aclamado como uma das maiores obras primas da história das mulheres no cinema.


Cena de Je tu il elle (1974)

O cinema de Chantal Akerman sempre abordou visões críticas do comportamento em massa da classe média e problemas políticos da sociedade, mesclando o objetivismo das questões com o subjetivismo de seus personagens, em sua maioria femininos. A diretora continua ativa em sua carreira (seu filme mais recente, La Folie Almayer, foi lançado em 2011) e possui um perfil no Facebook, onde tenho a honra de tê-la adicionada.


AGNÈS VARDA

Uma das diretoras mais importantes do cinema francês, a belga Agnès Varda dirigiu seu primeiro filme em 1955, aos 26 anos. La Pointe Courte retratava um casal infeliz, em um pequeno vilarejo, buscando uma melhora no relacionamento, sem obter muito sucesso. O filme foi apontado como um dos precursores do movimento do cinema francês Nouvelle Vague, que reuniu diretores aclamados como Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e François Truffaut (que já teve sua carreira analisada no blog). Porém, apesar das similaridades e da influência, o estilo de Varda se encaixava mais no movimento Rive Gauche, complementar à Nouvelle Vague, que incluiu diretores como Chris Marker, Alain Resnais, Henri Colpi, entre outros.

Foi em 1962 que Agnès lançou seu filme mais aclamado e reconhecido, Cléo de 5 à 7 (Cléo das Cinco às Sete, em português), narrando a história de Cléo (interpretada por Corrine Marchand), uma cantora francesa, que espera das cinco até as sete horas da tarde para seu diagnóstico médico, que pode ou não apontar a presença de um câncer no estômago. O filme abordou temas como existencialismo, feminismo, discussões de mortalidade, desespero e o ponto de vista feminino na sociedade. Apontado como uma reviravolta no cinema internacional, Cléo de 5 à 7 é aclamado até hoje como um dos maiores êxitos de uma mulher na direção de um filme.


Cena de Cleo de 5 a 7 (1962)

Após o sucesso de Cléo, Agnès trabalhou em outras obras aclamadas, como Le bonheur (As Duas Faces da Felicidade no Brasil) e Sans toit ni loi (Os Renegados). Também se especializou em emocionantes documentários, como Jacquot de Nantes, sobre a vida e obra de seu falecido marido e colega de profissão Jacques Demy. Agnès também dirigiu Jane Birkin e Charlotte Gainsbourg, mãe e filha, em seu filme Kung-Fu Master (O Mestre do Kung-Fu), de 1987. Posteriormente, em Les Cent et Une Nuits de Simon Cinéma (As Cento e Uma Noites), Agnès trabalhou com artistas renomados como Robert de Niro, Marcello Mastroianni, Harrison Ford, Alain Delon, Catherine Denouve, Jeanne Moreau, Jean-Paul Belmondo, e até atores contemporâneos como Leonardo Di Caprio.


Cena de Les Plages d’Agnès (2008)

O filme mais recente de Agnès Varda foi lançado em 2008. Les plages d’Agnès (As Praias de Agnes, que inclusive foi exibido entre janeiro e fevereiro de 2012 no CineSESC, em São Paulo) é um documentário autobiográfico que retrata sua vida aos oitenta anos (e mais de quarenta de carreira), sua obra como fotógrafa e como cineasta, combinando imagens e entrevistas com atores que trabalharam com ela no passado. Em uma entrevista, Agnès disse que provavelmente este seria seu último filme. Atualmente, ela leciona na European Graduate School, uma das mais importantes escolas de cinema do mundo.


VERA CHYTILOVÁ

Nascida em 1929 na antiga Tchecoslováquia (atual República Tcheca), Vera Chytilová é provavelmente uma das mais geniais e desconhecidas cineastas do cinema internacional. Chytilová se especializou no estilo de cinema avant-garde e foi uma das grandes pioneiras do cinema tcheco.

Desde o início de sua carreira, a temática do cinema de Chytilová tornou-se facilmente reconhecível, por apresentar dilemas éticos, evitar clichês e incentivar a emancipação feminina. Logo pelo seu trabalho seu primeiro filme, O necem jiném (Algo Diferente em português), Vera ganhou um festival em Mannheim, Alemanha. Mas foi com Sedmikrásky (As Pequenas Margaridas) que o nome da diretora tornou-se reconhecido e apontado como uma das precursoras do movimento Nová Vlna (a New Wave da Tchecoslováquia). O filme, produzido por um estúdio financiado pelo Estado, inovou em seu estilo de filmagem e narrativa, mas foi banido pelo governo tcheco por “representar devassidão”. Graças a isso, Chytilová foi proibida de dirigir filmes em seu próprio país até 1975.


Cena de Sedmikrásky (1967)

Recusando-se a encerrar sua carreira devido ao incidente, a diretora continuou com seu trabalho, e em 1969, alguns anos após Sedmikrásky, retornou à direção com seu Ovoce stromu rajských jíme (Fruta do Paraíso), abordando novamente um tema polêmico, com representações de Adão e Eva jamais vistas anteriormente no cinema. O filme não foi lançado em sua terra natal, mas foi aclamado por sua arte surrealista e transgressora; em 1970 o filme chegou a ser indicado para o Festival de Berlim.


Cena de Ovoce stromu rajských jíme (1969)

Atualmente com 83 anos e sem intenção de parar, o último filme de Vera Chytilová, O láskách týraných, foi feito para a TV tcheca e lançado em 2009. Seus trabalhos iniciais eram surrealistas, estoneantes, simultaneamente perturbadores e encantadores. Infelizmente, não tenho informação de seus trabalhos mais recentes, por ser muito difícil encontrado algo sobre eles mesmo em sites tchecos. Mas todos seus trabalhos que tive acesso fazem com que ela merecidamente seja incluída na lista de diretoras que merecem maior reconhecimento.


Colocaríamos diversas menções honrosas nessa postagem, citando nomes como Danièle Huillet e Forough Farrokhzad, mas são nomes importantes e de carreiras extensas que farão parte de um futuro Top 5.