[Oscar 2012] Resenha dos indicados a Melhor Filme

2012 - fev Postado por Pietro Milan e Bruno Colli Nenhum comentário

A premiação da Academia acontecerá na data dessa postagem e será transmitida no Brasil a partir ds 22h, no horário de Brasília. Antes que ela comece, decidimos fazer essa matéria, com nossos comentários e avaliações aos indicados na categoria de melhor filme. Para qual você está torcendo?


THE ARTIST
O Artista

O filme de Michel Hazanavicius já foi avaliado por nós aqui no Moonflux, e o nosso consenso é de que, apesar de ser um bom filme e contar com ótimas atuações, sua história fraca e os exageros batidos diminuem um pouco de sua qualidade. Ele tem seus méritos como uma homenagem, mas poderia ter se saído melhor. Leia nossa avaliação completa para uma opinião desenvolvida.

Por que foi indicado? 2011 foi o ano das homenagens no cinema. Hugo, The Artist, Super 8, Midnight in Paris, War Horse, My Week With Marilyn, Drive e diversas outras películas o fizeram, obtendo diversos resultados em suas adaptações. Porém, The Artist se destaca por seguir um estilo diferente (mas não inovador, pois inúmeros filmes mudos em preto e branco foram lançados desde o fim da era dos filmes sem som, inclusive recentemente. O que conta aqui é a coragem do diretor ao lançar um filme mainstream nesse estilo, pois inovador por ser P&B e mudo nos tempos atuais é algo que ele realmente não é) e que se encaixa no padrão dos indicados da Academia, pois é um romance leve que homenageia, ainda que de forma um pouco forçada, os clássicos do cinema mudo dos anos 20.
Possui chances de ganhar? Sim, pois já foi apontado como um grande favorito da Academia, venceu o Globo de Ouro e inúmeros outros prêmios na mesma categoria, e provavelmente será o grande vencedor.

AVALIAÇÃO:


THE DESCENDANTS
Os Descendentes

O advogado Matt King (George Clooney), pai de duas filhas, é descendente de uma das mas antigas famílias do Havaí e proprietário do último pedaço de terra virgem da ilha. Pressionado para vender a terra e enfrentando um grave problema familiar, Matt acaba tendo que tomar decisões importantes e cuidar das filhas.

Os temas são poucos e fortes (morte, família, traição) mas são superados pelas pequenas contradições no roteiro e um certo marasmo na narrativa. Seguindo a linha do diretor Alexander Payne, é um filme que não inova e não se aprofunda demais nos temas, ganhando notoriedade pela atuação de George Clooney, favorito na categoria Melhor Ator.

Por que foi indicado? Os críticos elogiaram todos os aspectos do filme, do roteiro, as atuações e a direção. The Descendants conseguiu manter uma boa publicidade em 2011. Trata de um tema delicado, como o desligamento de aparelhos de um paciente com morte cerebral (apesar do tema não ser aprofundado em momento algum) e a ótima atuação de Clooney.
Possui chances de ganhar?
Não. O filme ainda tem alguma chance de ganhar como Melhor Roteiro Adaptado, mas muito longe de conquistar o prêmio de Melhor filme.

AVALIAÇÃO:


EXTREMELY LOUD AND INCREDIBLY CLOSE
Tão Forte e Tão Perto

Oskar Schell (Thomas Horn) é um garoto inteligente, sensível e persistente quando se trata de alcançar um objetivo. Um ano após perder o pai (Tom Hanks) no atentado às Torres Gêmeas, no 11 de setembro, encontra uma chave em um envelope com a palavra “Black”. Oskar então inicia uma jornada por todos os cantos de Nova York a fim de descobrir o mistério por trás da chave, enquanto a mãe (Sandra Bullock) parece se isolar cada vez mais, enquanto a relação com seu filho se torna cada vez mais distante.

A grande esperança do filme era o roteiro assinado por Erich Roth, mas a forma leve com que Jonathan Safran Foer tratou questões tão densas no romance não foram traduzidas da mesma forma no roteiro, e o que deveria ser leve e claro se transformou em um emaranhado complexo e acelerado. também eliminando as chances do filme seja vencedor na categoria Melhor Roteiro Adaptado. A surpresa agradável é a participação do ator sueco Max von Sydow (candidato ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), que interpreta o inquilino da avó de Oskar e rende as melhores cenas do filme. Mas ironicamente aqui vem outro ponto negativo para a adaptação: na versão do diretor diretor Stephen Daldry sua participação é quase ocasional, sendo que no romance ocupava metade da história.

Por que foi indicado? Por retratar de um assunto delicado e que ainda está na mente de muitos norteamericanos. Embora tenha sido o último dos filmes apresentado aos críticos, Extremely Loud and Incredibly Close difícilmente seria ignorado pela Academia. Stephen Daldry foi indicado por todos seus filmes até agora (quatro no total), o elenco conta dois veteranos do Oscar, Tom Hanks e Sandra Bullock, além de adaptar um dos primeiros romances a tratar sobre os atentados ao World Trade Center. Além disso, o filme foi lançado em 2011, quando o atentado às torres gêmeas completou dez anos.
Possui chances de ganhar? Na verdade, não. O filme ganhou muitas críticas negativas e chega a parecer estranho que tenha sido indicado para melhor filme. Mesmo assim, em matéria de qualidade, ele supera alguns dos indicados na mesma categoria, o que torna as críticas um tanto injustas. De qualquer forma, Extremely Loud and Incredibly Close não é um filme abismalmente ruim, mas também não é indispensável e muito menos digno da estatueta de Melhor Filme.

AVALIAÇÃO:


THE HELP
Histórias Cruzadas


Baseado no romance de Kathryn Stockett, dirigido e adaptado por Tate Taylor. O filme conta com ótimas intérpretes, como Emma Stone, Viola Davis, Bryce Dallas Howard, Octavia Spencer (vencedora do Golden Globe 2012 como Melhor Atriz Coadjuvante) e Jessica Chastain. Skeeter (Emma Stone) é uma jovem jornalista que está escrevendo um livro, que compila diversas histórias de empregadas domésticas, o preconceito racial enfrentado por elas em uma Mississipi preconceituosa e conservadora nos anos 60.

Mas o grande elenco não consegue salvar o filme dos exageros: o excesso de estereótipos, clichês e personagens caricatos que parecem ter saído de um conto de fadas, transformando o tema central, a séria questão racial, em um mero instrumento para extrair lágrimas do espectador. O filme poderia ser uma importante obra a retratar a tensão racial nos Estados Unidos no anos 50 e 60, a exemplos de verdadeiros clássicos do gênero como Guess Who’s Coming to Dinner (Adivinhe Quem Vem para Jantar), de Stanley Kramer, Shadows, de John Cassavettes, Angst essen Seele auf (O Medo Devora a Alma), de Rainer Werner Fassbinder, entre muitos outros exemplos a serem considerados, mas se mostra desnecessário e não merecedor do prêmio. Contudo, as atrizes cumprem bem os papéis que lhe foram propostos e merecem as indicações, que são três: Viola Davis como Melhor Atriz e Jessica Chastain e Octavia Spencer como coadjuvantes.

Por que foi indicado? Se a Academia queria mulheres para harmonizar a octogésima quarta edição do Academy Awards, seria uma escolha inteligente indicar este drama feminino que surpreendeu as bilheterias. A indicação de The Help também harmonizou a relação entre eleitores e público, que freqüentemente não estão em sintonia.
Possui chances de ganhar? Há muito tempo um filme tão estereotipado como E o Vento Levou e que tenha feito tanto sucesso não figurava na lista dos indicados à categoria de Melhor Filme. Talvez possa até ganhar, como um pedido de desculpas da Academia pelas injustiças cometidas aos atores e diretores negros no passado. Mas isso já ocorreu em 2002, portanto…

AVALIAÇÃO:


HUGO
A Invenção de Hugo Cabret

O mais novo longa metragem de Martin Scorsese também foi avaliado no blog, mas já aviso anteriormente que é impossível fazer uma análise concreta do filme sem entregar alguns spoilers importantes do mesmo. Clique aqui para ler a análise.

Por que foi indicado? Porque assim como vários dos outros indicados, Hugo é uma grande homenagem ao cinema clássico, mais precisamente a um dos maiores pioneiros da sétima arte: Georges Méliès. Scorsese também é um grande favorito da academia e vários de seus filmes, como Goodfellas e Taxi Driver, foram indicados para a categoria de melhor filme, mas somente The Departed ganhou uma estatueta.
Possui chances de ganhar? Sim, pois o filme é um grande espetáculo visual em matéria de fotografia, funciona melhor do que The Artist como homenagem, e no geral merece mais a estatueta do que seu principal concorrente. Porém, o prêmio deve ir mesmo para The Artist, enquanto Hugo provavelmente se sairá melhor em outras categorias.

AVALIAÇÃO:


MIDNIGHT IN PARIS
Meia Noite em Paris


Após uma série de filmes medíocres, como Whatever Works e You’ll Meet a Tall Dark Stranger, Woody Allen retornou à boa forma com Midnight in Paris, estrelando Owen Wilson como o protagonista Gil Penders, Rachel Adams como sua esposa Inez, Marion Cotillard como a co-protagonista Adriana e um respeitável elenco que inclui Adrien Brody e Kathy Bates interpretando célebres figuras do passado, como Salvador Dalí, Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Luis Buñuel, entre outros.

Com um protagonista não intencionalmente simpático interpretado por um surpreendentemente Wilson, esse divertido e encantador filme que retrata os tempos áureos (ainda que de forma bastante politicamente correta) do meio artístico dos anos 20 pode ser considerado um dos melhores do diretor, que poderia ter escrito um filme autobiográfico considerando sua paixão por essa era. Midnight in Paris foi eleito por nós um dos melhores filmes do ano passado, e se ganhasse uma estatueta, seria merecido.

Por que foi indicado? Porque mereceu. Brincadeiras sinceras à parte, Midnight in Paris é um grande retorno do diretor, que apesar de ter recebido inúmeras indicações ao Oscar em toda sua carreira (sete indicações para melhor diretor e quinze por melhor roteiro original), ganhou bem poucas delas. Midnight in Paris contém uma história agradável e que também funciona como uma homenagem à sétima arte, mas de forma distinta de seus concorrentes, pois alterna entre os tempos atuais e os tempos antigos (que podem ou não ser mera imaginação do protagonista), mas contém seu próprio estilo de fotografia e direção de arte, além de ser um dos filmes mais pessoais do diretor, e também a sua visão transmitida em um filme.
Possui chances de ganhar? Até possui, mas poucas. O único filme de Woody Allen que ganhou a estatueta foi Annie Hall, de 1977. Midnight in Paris teria bem mais chances de ganhar se não fossem concorrentes de peso como Hugo e The Artist. Mas quem sabe o filme não se torne a grande surpresa da noite?

AVALIAÇÃO:


MONEYBALL
O Homem Que Mudou o Jogo

Adaptação do livro Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game, de Michael Lewis, e estrelado por Brad Pitt, Moneyball é um filme que retrata a história real do técnico do time de baseball Oakland Athlectics, Billy Beane, mais precisamente durante a temporada de 2002 do time. Beane (Pitt) é um ex-jogador de baseball que se tornou o GM (general manager, o maior responsável pelas transações de jogadores nos times) da equipe em que jogou no passado. Decidido a tirar o time da péssima temporada que está atravessando, com a ajuda do jovem economista Peter Brand (Jonah Hill), ele contrata uma série de jogadores com a verba limitada que possui, na esperança de que a equipe supere essa fase e volte a ser um time respeitável.

Moneyball pode ser facilmente considerado o pior de todos os filmes indicados a categoria de Melhor Filme. A atuação de Pitt é insossa e não convence; ele até se esforça para transmitir alguma emoção, tenta sensibilizar, mas não chega a lugar algum, pois seu personagem (assim como todos os personagens do filme) não possui o mínimo de carisma sequer. É difícil simpatizar com personagens tão vazios e insossos. O roteiro é fraco, arrastado e ainda assim não desenvolve os poucos pontos interessantes que poderia ter. Em questões técnicas, Moneyball chega a ser genérico, pois já vimos o mesmo estilo de fotografia e direção de arte em inúmeros filmes.

Por que foi indicado? É um filme tipicamente norteamericano, que conta a história de um esporte pouco popular fora dos Estados Unidos. O fato de ser um filme sobre esportes não significa que o filme seja automaticamente ruim por causa disso, pois o que importa é a forma que ele é conduzido. Moneyball, porém, coleta todas as características de um filme que ilustra os valores americanos da forma mais estereotipada possível e junta todas elas de forma pouco coesa e desinteressante. O falso moralismo da história chega ao ápice do termo “Happy Holidays” ser utilizado ao invés do tradicional “Merry Christmas“, um exemplo do politicamente correto imposto nos tais valores americanos.
Possui chances de ganhar? Felizmente não, a menos que os jurados da Academia decidam julgar o filme por seu valor “patriota”, com ênfase nas aspas.

AVALIAÇÃO:

Análise de Moneyball escrita com a colaboração de Bruno Ferrari.


THE TREE OF LIFE
A Árvore da Vida

Apesar de ter iniciado sua carreira como cineasta nos anos 60, Terrence Malick possui apenas seis filmes em toda sua carreira. Conhecido por dar um grande intervalo entre suas películas (o maior deles sendo de vinte anos), o recluso diretor voltou à ativa com The Tree of Life, drama que conta a história de três irmãos que descobrem o mundo e perdem a inocência em contato com a perda e a dor, com um pai autoritário com o qual não conseguem se comunicar. O filme alterna entre o passado, o presente e o futuro, retratando o falecimento de um dos irmãos e como a família lida com a dor, e o adulto deprimido e infeliz que seu irmão mais velho se tornou.

O filme propõe uma reflexão muito interessante sobre o início da vida e seu inexorável fim. Porém, Malick se perde ao tentar unir técnica e sugestão e filosofia, e The Tree of Life se torna monótono, excessivamente lento e cansativo. Mais de meia hora (sem exagero) de cenas foram gastas em uma desnecessária demonstração de efeitos visuais, que mais parecem ter sido retiradas do Discovery Channel ou do National Geographic. Deve se tornado que essa duração poderia ter se resultado em metáforas perfeitas para o filme ou em cenas que poderiam adicionar mais detalhes à história, mas não foi o que ocorreu. Como resultado, The Tree of Life se tornou um filme cansativo, onde seus únicos pontos fortes são a trilha sonora e a fotografia.

Por que foi indicado? Considerado por muitos críticos como a grande preciosidade de 2011, marcando também a volta de Terrence Malick após seis anos longe dos estúdios, o filme, que conta com atores consagrados como Brad Pitt e Sean Penn, não passaria despercebido ao olhar dos eleitores da Academia. Malick sempre foi um grande favorito da premiação, recebeu diversas indicações ao longo de sua carreira, porém nunca ganhou nenhuma.
Possui chances de ganhar? Muito improvável. A menos que os jurados da Academia decidam inovar um pouco, dando a estatueta para um filme considerado mais artístico, porém já há um filme que se encaixa nesse quesito concorrendo (Midnight in Paris) e que se sai muito melhor nessa categoria.

AVALIAÇÃO:


WAR HORSE
Cavalo de Guerra

O segundo filme de Steven Spielberg lançado em 2011 (o primeiro foi The Adventures of Tintin), War Horse é baseado no livro infantil homônimo de Michael Morpurgo. Ambientado na Europa durante a Primeira Guerra Mundial, o filme conta a história de um cavalo comprado em um leilão por um pobre agricultor, Albert (Jeremy Irvine) por mero orgulho e para não deixar que seu senhorio, o repugnante Lyons (David Thewlis), ganhe a oferta. Seu filho Ted (estreia do ator Peter Mullan) se apega ao cavalo e com o apoio da mãe, Rose (Emily Watson) passa a cuidar do mesmo, ensinando-o truques e tratando-o como um filho. Porém, preso na pobreza, com uma a dívida do aluguel e vendo o cavalo como último recurso de livrar-se dela, Albert vende o cavalo para o exército britânico, para desespero de seu filho.

War Horse retrata os árduos tempos da guerra de forma trágica, mas ao mesmo tempo, simplória. Ele não poupa os clichês e tenta desesperadamente alcançar um clímax logo em seus minutos iniciais, mas Spielberg já utilizou essa fórmula inúmeras outras vezes. Dessa forma, War Horse transparece ser batido logo em seu início, pois já vimos diversas histórias assim antes (várias vezes nas mãos do próprio Spielberg) e não é nada difícil imaginar a conclusão do filme dez minutos após começar a assistir. As cenas de guerra não empolgam, e apesar da simpatia pelo objetivo de Ted em resgatar seu adorado cavalo de estimação, o personagem chega a soar irritante em algumas cenas, com seu discurso idealista e diálogos que seriam apropriados para um garoto de oito anos, mas não para um jovem de dezessete. Se não fossem pelas cenas insossas ambientadas durante a guerra, poderia até servir para assistir numa tarde entediante – até porque realmente parece o tipo de filme que será transmitido na Sessão da Tarde daqui alguns anos.

Por que foi indicado? Pela fórmula. Mesmo batida e desgasta, o tipo de filme representado por War Horse (leia-se “o tipo de filme que se esforça ao máximo para te fazer chorar”) sempre foi um dos favoritos da Academia. Sem contar que é difícil lembrar um filme de Spielberg que não tenha recebido ao menos uma indicação em qualquer categoria – porém, seu último filme que conseguiu a estatueta na categoria foi Saving Private Ryan (O Resgate do Soldado Ryan), em 1999. E mesmo com seu roteiro fraco, War Horse faz bonito em questões técnicas, ainda que seja de um exagero absurdo. Mas desde quando a Academia não gosta de exageros?
Possui chances de ganhar? Praticamente nulas. O filme possui mais chances de ganhar nos quesitos técnicos, como Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora, essa última realmente merecedora da indicação e do prêmio.

AVALIAÇÃO: