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[Música] Kate Bush

[Música] Kate Bush

Inovadora, criativa, original e de extrema importância para a música. Essas são frequentes expressões para definir a artista que falaremos sobre na matéria de hoje: Kate Bush. Com uma carreira que dura mais de trinta e cinco anos, essa cantora de importância indubitável para a música pavimentou o caminho para inúmeras cantoras que surgiram após sua estreia na indústria musical, de Tori Amos a Björk, passando por Fiona Apple, Florence Welch, Anna Calvi e PJ Harvey, e até mesmo cantores e atos musicais de diversos gêneros, como Marc Almond, Radiohead e Johnny Rotten (dos Sex Pistols e do Public Image Ltd.). Mas afinal, por que Kate Bush é tão importante e influente até os dias de hoje? É o que vamos analisar nesta matéria.


INÍCIO

Nascida no dia 30 de julho de 1958, Catherine Bush veio de um background familiar que influenciou muito em suas composições; seu pai, um físico e pianista inglês chamado Robert Bush, e sua mãe, Hannah, uma dançarina irlandesa. Seus irmãos, ambos mais velhos, também possuíam veia artística. John Bush era fotógrafo e poeta, e Paddy Bush, que posteriormente trabalhou com a irmã em praticamente todos seus álbuns, fabricava instrumentos musicais. Convivendo com tantos artistas talentosos, era de se imaginar que Kate não seria diferente. E não foi. Com apenas onze anos, aprendeu a tocar piano sozinha, além de ter estudado violino nesta mesma época. Não muito tempo depois, já escrevia canções, tanto melodias quanto letras. Além disso, graças a influência do irmão John, também aprendeu a lutar karate nesse período, com o famoso instrutor Dave Hazard – que em sua biografia notou que seus passos de dança poderiam ter sido influenciados por seus movimentos durante as lutas.

Em meados dos anos 70, a família de Kate gravou diversas fitas demo com suas canções (mais de 50!) para gravadoras distintas, mas foram recusadas. A desculpa era sempre a mesma: “esse tipo de música não vende”. Mas nem tudo estava perdido, pois Ricky Hopper, amigo da família Bush, apresentou os demos para um amigo em comum. O amigo em questão era ninguém menos que David Gilmour, famoso por seu trabalho com a banda Pink Floyd, banda atemporal que estava no auge de seu sucesso nesta época. Impressionado com o que ouviu, Gilmour contatou Kate, e com ela gravou demos mais profissionais para enviarem novamente às gravadoras. Esses demos foram produzidos pelo engenheiro de som Geoff Emerick e por Andrew Powell, que posteriormente também produziu os dois primeiros álbuns de Kate. Nessa época, o rock progressivo estava no auge, porém a indústria musical estava meio estagnada, pois todas as bandas queriam ser “o novo Pink Floyd“. Quando Terry Slater, um executivo da EMI, ouviu as fitas de Kate, tratou de assinar um contrato com ela imediatamente, para que nenhuma outra gravadora pudesse assinar contrato com ela, já que atos experimentais poderiam ser considerados o próximo gênero bem sucedido da indústria, e a EMI não perderia a chance de gravar algo que poderia ser tão bem sucedido. E eles tinham razão. Até hoje Kate Bush possui contrato com a gravadora.

Porém, nem tudo ocorreu conforme o esperado. Bob Mercer, diretor empresarial da EMI, não permitiu que Kate lançasse um álbum imediatamente. A justificativa de Mercer foi que ela era muito nova, e se o álbum fracassasse comercialmente, poderia afetá-la e desmoralizá-la, e se fosse bem sucedido, ela não conseguiria lidar com o sucesso. Durante os dois anos de espera, com o dinheiro adiantado que recebeu da EMI, Kate aproveitou para aprimorar sua técnica musical, onde chegou a ter aulas com Lindsay Kemp, o mesmo instrutor de dança de David Bowie. Também escreveu mais de 200 (!!!) canções e fez alguns shows com sua banda recém formada, a KT Bush Band.

Finalmente, em agosto de 1977, já com 19 anos, ela conseguiu gravar suas canções para sua estreia profissional. Uma das exigências da EMI foi que ela usasse músicos do próprio estúdio ao invés dos integrantes de sua banda, algo que ela aceitou, contanto que também pudesse trabalhar com seus colegas posteriormente. Seu irmão Paddy também ajudou nas gravações, tocando instrumentos como gaita e mandolin.


THE KICK INSIDE

Finalmente, em 1978, Kate Bush lançou seu primeiro single, Wuthering Heights, inspirado por uma adaptação televisiva do livro homônimo de Emily Brontë (que faria aniversário no mesmo dia de Bush), composto em uma única noite, sob a luz do luar. A letra da canção é retratada do ponto de vista da personagem Catherine Earnshaw, que morre no decorrer da história, e como um fantasma, aparece para seu amado, o abusivo Heathcliff, buscando seu perdão para ficar livre do purgatório. Posteriormente, Kate também leu o livro, para que não houvesse nenhum erro em sua composição. Inicialmente, a EMI gostaria que o primeiro single fosse James and the Cold Gun, mas Kate insistiu que o single deveria ser sua estreia. Como resultado, Kate Bush tornou-se a primeira mulher a atingir o primeiro lugar nas vendas de singles do Reino Unido com uma canção escrita por si mesma, além de ter atingido o primeiro lugar em diversos outros países, como Austrália, Itália, Bélgica, Nova Zelândia e Irlanda, e o top 10 de singles mais vendidos na Suécia, Suíça, Holanda e até mesmo o Brasil. Como se não bastasse, também ajudou a aumentar as vendas do livro de Brontë, que tantos anos após sua morte tornou-se novamente um sucesso. Wuthering Heights é até hoje considerado por diversos críticos e publicações respeitáveis de música como um dos maiores e mais importantes singles de todos os tempos.

Um mês após a estreia de Wuthering Heights, eis que surge o primeiro álbum de Kate Bush, The Kick Inside. Diversas das canções foram escritas quando Kate possuía somente 13 anos, e várias delas faziam referências a trabalhos literários e cinemáticos, como a própria Wuthering Heights, filosofia espiritual (como em Them Heavy People, na qual ela referencia o filósofo e professor espiritual George Gurdjieff), dança (Moving, inspirada por seu professor Lindsay Kemp), fenômenos sobrenaturais (Strange Phenomena), baladas trágicas (a faixa título, The Kick Inside, inspirada na balada de Lizie Wan, sobre um incesto entre irmãos que acaba na gravidez da garota, que se suicida enquanto está grávida do fruto deste relacionamento) e até mesmo sexualidade (L’amour Looks Something Like You e Feel It). No ano seguinte, a canção do álbum The Man with the Child in His Eyes ganhou um prêmio Ivor Norello por Composição Britânica Marcante. The Kick Inside atingiu o top 10 de álbuns mais vendidos em diversos países, tornando-se um sucesso de crítica e de público. Satisfeitos com o sucesso, a EMI pediu para que Kate gravasse seu próximo trabalho o mais depressa possível.

Wuthering Heights

Wuthering Heights (US Video)

Them Heavy People

The Man with the Child in His Eyes


LIONHEART

Lionheart, o segundo álbum de Kate Bush, foi lançado em novembro de 1978, somente dez meses após The Kick Inside. O álbum marcou fatos importantes em sua carreira artística: pela primeira vez, ela participou da produção do álbum (mas como assistente), e também pela primeira vez, gravou um álbum fora do Reino Unido (todas as gravações de Lionheart foram feitas em Nice, na França). O primeiro single de Lionheart, Hammer Horror, fazia referência clara aos filmes de horror da produtora britânica Hammer Films, famosa por suas adaptações de clássicos da literatura de horror, como Dracula e Frankenstein. Apesar de ser uma ótima canção, uma das melhores da fase inicial de sua carreira, Hammer Horror não foi a escolha mais adequada para um single, e acabou não atingindo o sucesso esperado. Wow, seu próximo single, fez um sucesso bem maior, algo que pode ser comprovado com sua aparição, mais de vinte anos após seu lançamento, na trilha sonora do jogo Grand Theft Auto: Vice City.

Hammer Horror

Kate Bush não gostou do resultado de Lionheart, dizendo que foi apressada para gravá-lo e que gostaria de ter mantido mais controle criativo do que lhe foi permitido. Graças a isso, Kate fundou sua própria empresa de publicações musicais, Kate Bush Music, e sua própria companhia empresarial, Novercia, organizada pela própria Kate e por membros de sua família, para ter controle de seu trabalho. Apesar disso, Lionheart também apresentou muitas qualidades e afrontas aos tabus da época: Oh England My Lionheart, a faixa título, é sobre um piloto de avião que, enquanto observava sua amada Inglaterra em sua visão aérea, é alvejado e cai para sua morte, Kashka From Baghdad é sobre um simpático casal de homossexuais injustamente deserdados por suas famílias, Wow também possui referências a um casal homossexual (um exemplo explícito na frase “he’s too busy hitting the vaseline”) e Symphony in Blue, faixa que abre o álbum, é um dos primeiros exemplos de mulheres falando sobre sexo abertamente em uma canção, quase como uma afronta à imagem estereotipada da mulher que não pode falar sobre sexo: “the more I think about sex, the better it gets“.

Wow


THE TOUR OF LIFE

Nessa mesma época, para promovê-la, EMI solicitou que Kate entrasse em tour, pois o público estava ansioso para assistir a cantora ao vivo. Foi quando ela entrou em sua primeira tour: The Tour of Life. Considerada uma das mais importantes e influentes tours de todos os tempos, iniciou-se em abril de 1979 e durou seis semanas. Kate Bush foi a primeira artista a utilizar a inédita (na época) tecnologia do microfone sem fio em suas performances, além de leituras durante o intervalo entre as trocas de roupa, utilização de dançarinos no palco, mistura de elementos de mímica e mágica, e a projeção do espetáculo em um telão. Dessa forma, podemos concluir que todas as artistas que fizeram o mesmo posteriormente foram influenciadas pela técnica que Kate Bush introduziu em seus shows. Portanto, antes de exaltar suas “divas pop” pela “criatividade”, lembre-se que Kate Bush fez tudo isso muito antes delas nascerem ou se tornarem alguém na vida. Infelizmente, sua primeira tour foi também a única: talvez por uma série de fatores, como um dos técnicos do show, o diretor de iluminação Bill Duffield, ter falecido durante uma das performances, ou de um possível (mas nunca confirmado) medo de avião, Kate Bush nunca mais entrou em tour novamente. Uma das três últimas performances do show, no Hammersmith Odeon em Londres, foi gravada e lançada em vídeo somente em 1994 – antes disso, havia somente uma gravação de um destes shows, no EP On Stage, lançado ainda em 1979.

James and the Cold Gun (Live at Hammersmith Odeon)


NEVER FOR EVER

No ano seguinte, Kate retornou aos estúdios, e lançou seu novo single, Breathing, em abril de 1980. Uma canção trágica e fúnebre, sobre um feto, que dentro do ventre de sua mãe sente medo da cinza nuclear ao seu redor, e absorve com dificuldade a nicotina ingerida por sua mãe; dessa forma, deixando implícito que a canção se passa em um período pós-apocalíptico ou durante uma guerra nuclear. A canção, que atingiu o 16º lugar nos singles mais vendidos do Reino Unido, é considerado um dos melhores e mais marcantes trabalhos de Kate Bush até hoje, incluindo pela própria cantora. O single de Breathing também foi o primeiro a incluir um b-side original, fora de canções do álbum, The Empty Bullring. Os b-sides da cantora são tão inspirados quanto suas canções do álbum, e vale muito a pena ouvi-los e descobrir um outro lado interessante de seu trabalho.

Breathing

Ainda no mesmo ano, mas dois meses após o lançamento de Breathing, um novo single da cantora: a divertida Babooshka, uma tragicomédia sobre uma esposa que decide testar a fidelidade de seu marido, mas que acaba destruindo o próprio relacionamento graças à própria paranoia, ao disfarçar-se de seu alter ego Babooshka para seduzir o marido. Babooshka foi um dos maiores sucessos de sua carreira, e inspirou até mesmo o roteiro de filmes como Le Fabuleux Destin d’Amèlie Poulain. O b-side do single de Babooshka, Ran Tan Waltz, também é uma tragicomédia, sobre um homem lamentando seu azar. Essa canção também é notável por usar a gíria “dick“, equivalente ao palavreado “pinto” em português, logo em seu primeiro verso.

Babooshka

Never For Ever, terceiro álbum de Kate Bush, foi produzido pela própria, contando com a co-produção de Jon Kelly. Esse importante álbum de sua carreira compilou Babooshka, Breathing e Violin (uma das mais antigas canções de Kate, que anteriormente só havia sido apresentada ao vivo), além de várias canções que podem ser facilmente incluídas entre as mais interessantes de sua carreira. The Wedding List, inspirada no clássico La Mariée était en noir, de François Truffaut (de onde o diretor Quentin Tarantino chupinhou a ideia de Kill Bill), conta a história de uma noiva que vê seu marido ser assassinado e faz uma lista de pessoas de quem deve se vingar, suicidando-se após matar todos os responsáveis pelo assassinato. The Infant Kiss, sobre uma governanta que se sente culpada pelo fato de sentir-se atraída sexualmente por um menino (possuído pelo espírito de um adulto), referencia o filme The Innocents, de 1961. A experimental (e maravilhosa) Egypt possui grande influência de Pink Floyd, Delius (Song of Summer) se refere ao compositor britânico Frederick Delius, enquanto Blow Away (For Bill) é uma homenagem póstuma a Bill Duffield, além de citar outros artistas que faleceram na década anterior, como Sid Vicious, Minnie Riperton, Keith Moon e Sandy Denny, além do cantor Buddy Holly, falecido nos anos 50.

Army Dreamers

Além de Breathing e Babooshka, Never For Ever originou mais um single, Army Dreamers, cuja melodia simpática e doce é um grande contraste às letras, sobre uma mãe que perdeu o filho durante a guerra e luta contra o próprio sentimento de culpa. O b-side de Army Dreamers, Passing Through Air, foi uma das primeiras composições de Kate, originalmente gravada em 1973 no estúdio de David Gilmour, algumas semanas após seu aniversário de 15 anos, aqui presente em forma regravada, sete anos depois. Never For Ever não só foi um passo enorme na evolução da carreira de Kate Bush, como também seu primeiro álbum a atingir o primeiro lugar nas vendas de álbuns do Reino Unido – aliás, o primeiro álbum em estúdio de qualquer mulher em carreira solo a atingir tal feito (não contando compilações). Um verdadeiro clássico, que também marca a transição de sua carreira para sua fase mais experimental. No fim de 1980, Kate Bush gravou seu primeiro single fora de álbum, o natalino December Will Be Magic Again, contendo o b-side Warm and Soothing.


THE DREAMING

Kate Bush retornou aos estúdios em 1982, mantendo uma forte liberdade criativa, com seu primeiro álbum inteiramente produzido pela própria: The Dreaming. Esse controverso e pouco acessível álbum marcou o ápice de sua criatividade, e é possivelmente o melhor e mais importante de sua carreira. Em matéria de produção, Kate mesclou diversos gêneros e também utilizou o sintetizador Fairlight CMI, tornando The Dreaming o primeiro álbum a utilizá-lo – lembrando que este sintetizador tornou-se um dos mais revolucionários do mundo da música não muito tempo depois, graças a sua capacidade de sampling – ou seja, The Dreaming foi um dos primeiros álbuns, se não O primeiro, a utilizar samples. A potência vocal de Bush nunca havia demonstrado tamanha força até então. Se a primeira faixa, Sat in Your Lap (que havia sido lançada como single no ano anterior) é uma das menos interessantes do álbum, todo o restante demonstra seu potencial absurdo, como a influentíssima faixa título, sobre a destruição das terras aborígenes nas mãos dos australianos. Uma canção pesada, experimental e obscura, bastante característica do clima do álbum. The Dreaming também originou outros singles, como a excelente There Goes a Tenner (e com um dos b-sides mais conhecidos de sua carreira, Ne t’enfuis pas), sobre um assalto ao banco que dá bastante errado, no ponto de vista de um criminoso paranoico e medroso, inspirada por filmes clássicos de crime; Suspended in Gaffa, sobre a experiência de ter/ver algo maravilhoso e nunca mais poder experienciar essa ocasião novamente; e Night of the Swallow, uma canção com forte influência do folk irlandês.

Mas é nas faixas que não foram single que o álbum mais se destaca, como a excelente Pull Out the Pin, inspirada por documentários sobre a Guerra do Vietnã, e as duas últimas faixas do álbum: Houdini e Get Out of My House. Houdini, uma canção poderosa e trágica, é contada sob o ponto de vista de Bess Houdini, esposa do famoso mágico Harry Houdini, e seu desespero ao ver o marido em seu truque da Tortura Chinesa da Gota d’Água, temendo que ele não possa escapar da mesma. Houdini também é a canção referenciada na capa do álbum, onde Kate, no papel da esposa de Houdini, passa a chave da armadilha para o marido com a própria língua – tal como a própria Bess o fez. A canção possui a frase “Rosabelle believe“, sampleada do filme Houdini, de 1951. Essa frase é um código secreto que Harry Houdini e Bess concordaram em usar, e que caso Houdini descobrisse que havia vida após a morte, ele utilizaria essa frase para se comunicar. Get Out of My House, inspirada no clássico The Shining, de Stanley Kubrick (adaptado do livro homônimo de Stephen King), é a canção mais pesada e perturbadora de The Dreaming, e possivelmente a mais interessante, sentimental, indescritível.

There Goes a Tenner

The Dreaming

Naturalmente, The Dreaming é o seu álbum menos acessível, mas com toda certeza um de seus melhores, se não O melhor. Obviamente, o álbum foi um fracasso comercial e a crítica se surpreendeu negativamente em seu lançamento, mas com o tempo seu trabalho grandioso foi reconhecido, e tanto a crítica quanto o público reconhecem este como um dos ápices de sua carreira, e um dos maiores êxitos no mundo da música. Após o lançamento de The Dreaming, Kate Bush entrou em um hiato de três anos, lançando somente um single neste período, Ne t’enfuis pas, anteriormente b-side de There Goes a Tenner, contendo Un baiser d’enfant, uma versão em francês de The Infant Kiss, presente no álbum Never For Ever.

Suspended in Gaffa


HOUNDS OF LOVE


Como o custo da produção de The Dreaming foi bem alto, Kate construiu um estúdio na casa de sua família, onde iniciou as gravações de seu próximo álbum, outro grande marco em sua carreira: Hounds of Love. Running Up That Hill, provavelmente sua canção mais famosa, foi o single que precedeu o álbum, contendo o b-side Under the Ivy, e novamente foi uma escolha da própria Bush ao invés de outra canção que a gravadora havia escolhido, Cloudbusting. E novamente, o resultado foi um grande sucesso comercial, até mesmo nos Estados Unidos, onde seus singles não costumavam fazer tanto sucesso. A canção foi a primeira a ser escrita para Hounds of Love e é frequentemente mal interpretada como se fosse uma canção religiosa devido ao subtítulo A Deal With God (e por isso mesmo teve o subtítulo removido no single, pois países religiosos poderiam confundir as coisas somente por ter God no título), mas na verdade é sobre o fato de um homem e uma mulher não se compreenderem totalmente devido ao fato de seus sexos não permitirem, portanto decidem fazer um pacto com Deus para trocarem os papeis, para dessa forma compreenderem-se melhor. Infelizmente, bandas como Placebo deterioraram a canção com covers muito ruins, mas a qualidade da original jamais será superada por nenhum cover infame.

Running Up That Hill

Hounds of Love foi lançado um mês após Running Up That Hill, e provou-se seu álbum mais bem sucedido comercialmente: no Reino Unido, tirou facilmente o álbum Like a Virgin, da Madonna (na época seu álbum de maior êxito comercial), do topo das vendas de álbuns (duas vezes!), e também entrou no top 10 de países como Holanda, Suíça, Suécia, Alemanha, França e Austrália. Também foi o primeiro álbum de Kate Bush a atingir o Top 40 de álbuns mais vendidos dos Estados Unidos, graças ao sucesso de Running Up That Hill. Utilizando de forma criativa o formato em vinil, o lado A do disco de Hounds of Love possui cinco canções, mais “acessíveis”, contendo todos os singles que foram lançados, além da já conhecida Running Up That Hill:

  • Cloudbusting, canção que referencia os trabalhos do psiquiatra, filósofo e psicanalista Wilhelm Reich, contando a história de sua relação com seu filho Peter, de quem o ponto de vista da canção é apresentado, com suas lembranças do laboratório de pesquisa de Reich, chamado Orgonon, referenciando a energia orgone (orgônio), termo desenvolvido pelo próprio Reich para descrever a energia vital, e que ganhou um clipe bem interessante, dirigido pelo renomado Terry Gilliam e com participação do ator Donald Sutherland, e um excelente b-side, Burning Bridge;
  • A faixa título Hounds of Love, sobre o medo de se apaixonar, e que ganhou um clipe inspirado no clássico The 39 Steps (Os 39 Degraus), de Alfred Hitchcock, contendo como b-sides The Handsome Cabin Boy, My Lagan Love (não confundir com a tradicional canção irlandesa homônima) e uma versão alternativa da faixa principal;
  • The Big Sky, sobre os prazeres simples da vida no ponto de vista de uma criança, como passar tardes observando o céu e o formato das nuvens, contendo o b-side Not This Time;
  • E a única faixa do lado A que não foi single, Mother Stands For Confort, uma simpática canção que Kate Bush compôs em homenagem a sua mãe.

Cloudbusting

Hounds of Love

O lado B, intitulado The Ninth Wave (nome retirado do ciclo de poemas Idylls of the King, de Lord Tennyson, sobre o Rei Arthur), conta a história de uma pessoa sozinha, prestes a se afogar no mar, no meio da noite, e sobre seu passado, seu presente e seu futuro influenciando-a para que ela não se afogue, para mantê-la acordada, até que a manhã chegue e ela esteja a salvo. The Ninth Wave é composto por sete canções que narram toda esta história: And Dream of Sheep, Under Ice, Waking the Witch, Watching You Without Me, Jig of Life, Hello Earth e The Morning Fog. Algumas delas, como Waking the Witch, Hello Earth e Under Ice, remetem ao clima sombrio e fúnebre de The Dreaming, refletindo os momentos mais desesperadores da protagonista de The Ninth Wave, enquanto The Morning Fog é a esperança de um dia renascido, um sopro de vida após uma noite tão única, repleta de experiências. É esse conjunto que torna Hounds of Love um álbum tão único e interessante, influente mesmo quase trinta anos após seu lançamento, e provando cada vez mais o talento de Kate Bush. Nesse período, a artista também gravou um cover de Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, para o ótimo filme Brazil, de seu amigo Terry Gilliam.

The Big Sky


THE WHOLE STORY, FERRY AID


Com o sucesso de Hounds of Love, em 1986 Kate Bush lançou sua primeira coletânea, The Whole Story, compilando 12 faixas (13 na versão em vídeo): dez singles lançados anteriormente, a inédita Experiment IV (cujo clipe continha uma participação especial de Hugh Laurie, muito antes do ator tornar-se famoso no papel do Dr. House, e foi banido pela BBC por ser “muito violento”) e uma regravação de seu maior sucesso, Wuthering Heights, com algumas modificações na letra e contendo vocal melhorado. A compilação foi um grande êxito comercial, ficando novamente em primeiro lugar nos álbuns mais vendidos do Reino Unido, mas na minha opinião, não representa tão bem seu trabalho, pois contém somente duas ou três faixas de seus álbuns anteriores, e como podemos ver nesta matéria, isso não é o suficiente. Uma compilação em dois discos seria bem melhor, ou que pelo menos compilasse There Goes a Tenner no lugar de Sat in Your Lap.

Experiment IV

Ainda em 1986, Kate Bush gravou o dueto Don’t Give Up com o amigo Peter Gabriel, um grande sucesso, apesar da faixa, composta por Gabriel, não ser exatamente a melhor das canções.

Don’t Give Up

Em 1987, Kate participou da gravação do single Let It Be, cover da clássica canção dos Beatles, organizada pelo grupo Ferry Aid, cuja responsabilidade pertencia ao tablóide The Sun, responsável por notícias e boatos difamatórios sobre diversos artistas, que organizou a gravação após o acidente na balsa MS Herald of Free Enterprise, que matou mais de 193 pessoas. The Sun havia vendido diversos ingressos baratos para a balsa neste dia, e talvez para não ser culpado pela mídia, trataram de reunir diversos artistas para a gravação do single, cujos fundos seriam arrecadados para as famílias dos mortos no acidente. Cantores como Kim Wilde, Boy George e a própria Kate só aceitaram participar da gravação por esse único motivo, já que não gostavam da ideia de ter alguma relação com o tablóide.

Ferry Aid


THE SENSUAL WORLD

Kate Bush retornou aos estúdios somente em 1989, com o conceitual The Sensual World, cuja faixa título faz referência a obra Ulysses, de James Joyce. Como não obteve permissão para usar frases do livro na letra, Kate escreveu letras que apenas referenciavam a obra em sua canção, que originalmente se chamaria Flower of the Mountain. A faixa título de The Sensual World também foi o primeiro single do álbum, e apresentou a sonoridade que estava por vir, com melodias e vocalizações inspiradas em canções étnicas, e contendo o excelente b-side Walk Straight Down the Middle. O álbum também originou os singles This Woman’s Work, tema do filme She’s Having a Baby, uma das canções mais belas que Kate já escreveu (e contendo a também ótima Be Kind to My Mistakes, também tema de um filme, Castaway, originalmente gravada em 1987 e regravada para o b-side), e a excelente Love and Anger, que chegou a atingir o #1 nas charts de Rock Moderno dos Estados Unidos em 1990, na época em que essa chart ainda valia alguma coisa. As faixas do álbum, como The Fog (uma das melhores canções que Kate já escreveu), Deeper Understanding, Heads We’re Dancing, a dramática Reaching Out e Between A Man And A Woman, também são bastante únicas e reforçam a qualidade do álbum; aliás, é difícil apontar uma única faixa fraca em The Sensual World.

The Sensual World

This Woman’s Work

The Sensual World também se destaca por ter participação do Trio Bulgarka, grupo búlgaro de vocalização, fazendo backing vocals em três faixas: Rocket’s Tail, Never Be Mine e Deeper Understanding. Essa última em especial se destaca por contar a história de um homem que se vicia em seu computador e passa a se isolar da sociedade, passando horas somente com seu computador, sem falar com absolutamente ninguém. Lembrando que essa faixa foi gravada em 1989, muito antes do vício em internet que dominou a sociedade no século XXI, dessa forma tornando-se praticamente profética. O humor negro de suas letras também está presente como de costume, como na faixa Heads We’re Dancing, sobre uma mulher que dança com um chamoso homem durante uma noite inteira, apenas para descobrir no dia seguinte que o homem em questão é Adolf Hitler. Um ótimo álbum, bastante conceitual, coeso e melódico, que vale a pena ser ouvido e incluído entre os melhores trabalhos da cantora.

Love and Anger


THIS WOMAN’S WORK

Em 1990, finalmente uma compilação esperada por todos os fãs: This Woman’s Work, um box set com todos os álbuns da cantora, além de todos os b-sides gravados entre 1978 e 1990, além de remixes e versões estendidas de alguns singles. Uma versão separada, contendo somente os b-sides, também foi lançada, e esta é mais do que recomendada, considerando a qualidade deste material. Em 1991, em homenagem ao amigo Elton John, Kate gravou o single Rocket Man, cover de uma de suas canções mais famosas, que atingiu o top 20 no Reino Unido e um sucesso ainda maior na Austrália, eleito como o melhor cover de todos os tempos pelos leitores do jornal The Observer em uma enquete. O b-side desse single é um cover de outra canção de John, a famosa Candle in the Wind, gravada originalmente em homenagem à Marilyn Monroe. Quando Elton John regravou a canção em 1997 homenageando sua amiga Princesa Diana, inspirou-se no cover de Kate, pois o considerou melhor que sua própria versão.


THE RED SHOES

Planejando uma nova tour, Kate Bush compôs algumas canções com um feeling mais apropriado para uma banda tocar ao vivo, e como resultado lançou o álbum The Red Shoes em 1993, tendo como primeiro single a dançante Rubberband Girl, uma de suas faixas mais acessíveis. O álbum teve inspiração no filme The Red Shoes, de 1948, de onde Kate também tirou o nome, e que por sua vez se inspira na fábula homônima de Hans Christen Andersen. Contando com participações de nomes importantes da música como Eric Clapton, Jeff Beck, o condutor Michael Kamen e até mesmo Prince, o álbum tinha tudo para ser um grande êxito comercial e representativo de uma nova fase de sua carreira, com menos produção em estúdio (que seriam difíceis de recriar no palco) e mais arranjos ao vivo, próximos de um dance rock mais acessível e comercial, apropriado para apresentações ao vivo.

Rubberband Girl

Porém, a tour acabou nunca se concretizando. Infelizmente, Kate Bush estava passando por momentos bem difíceis em sua vida pessoal, como a perda de seu guitarrista Alan Murphy, com quem trabalhava desde 1979, e a doença de sua mãe, Hannah. Uma das faixas de The Red Shoes, Moments of Pleasure, é uma homenagem a todos os amigos que a cantora perdeu com o tempo, como o próprio Murphy, o diretor Michael Powell, Bill Duffield, o dançarino Gary Hurst, entre outros. Moments of Pleasure também homenageia sua mãe, com o trecho “to those we love, to those who will survive“, diretamente referenciando o desejo de que sua mãe sobreviveria à doença; inclusive, a canção foi lançada como single justamente para homenagear sua mãe. Ela faleceu não muito tempo depois.

Moments of Pleasure

The Red Shoes acabou resultando em um álbum estranho, bem pouco característico de seu trabalho ao todo, dividido entre ótimos singles (Moments of Pleasure, Eat the Music e a faixa título) e faixas que soam arrastadas e pouco inspiradas. Os b-sides do álbum, como Show A Little Devotion e You Want Alchemy, são até interessantes, em especial esse último, e poderiam até estar inclusos em The Red Shoes, porém ainda estão em um nível de qualidade inferior ao que os fãs estavam acostumados. Para promover The Red Shoes, Kate Bush dirigiu o curta metragem The Line, The Cross & The Curve, estrelando a atriz Miranda Richardson, contendo seis faixas do álbum. Kate não ficou satisfeita com o trabalho final do filme, e após o fim da promoção do álbum, lançou apenas canções esporádicas, como The Man I Love, cover de George Gershwin para a compilação-tributo The Glory of Gershwin, e a canção Mná na hÉireann, totalmente em irlandês, para a compilação Common Ground: The Voices of Modern Irish Music. Após 1996, Kate Bush desapareceu completamente da mídia. Em 1998, a artista deu a luz ao seu filho Albert Bush, conhecido como Bertie, fato que a imprensa britânica usou para acusá-la de tentar esconder que teve um filho.

And So is Love

Eat the Music

The Line, The Cross & The Curve


AERIAL

Após anos sem um álbum inédito, eis que Kate Bush retornou aos estúdios, apresentando a inédita King of the Mountain, referenciando o memorável filme Citizen Kane, de Orson Welles, e o famoso “rei do rock” Elvis Presley. Esse ótimo single, apresentando novamente a nova sonoridade de seu material (e com um simpático cover de Sexual Healing, de Marvin Gaye, como b-side), precedeu o lançamento de Aerial, álbum lançado em novembro de 2005, quase exatos 12 anos após o lançamento de The Red Shoes. Aerial, assim como Hounds of Love, é um álbum conceitual dividido em duas partes: o primeiro disco, A Sea of Honey, contendo canções não relacionadas entre si, e o segundo, A Sky of Honey, relatando aventuras de um único dia de verão, iniciando-se em uma manhã e terminando 24 horas depois, no próximo nascer do sol. A Sea of Honey apresenta canções interessantes como ?, cuja letra é composta somente de decimais do numeral ? (Pi); Bertie, uma fofa homenagem ao seu filho, composta em forma de música renascentista; Mrs. Bartolozzi, uma melancólica canção sobre uma senhora que ficou viúva há bem pouco tempo; How to Be Invisible, simpática canção que também poderia ser um single; Joanni, inspirada em Jeanne D’arc; e a excelente A Coral Room, uma canção tocante e emocional que homenageia sua mãe, possivelmente uma das melhores canções escritas por Kate.

King of the Mountain

A Sky of Honey flui como se fosse uma única canção, todas referenciando passagens do dia, pássaros, e a natureza ambígua do crepúsculo. Um disco bem calmo, com alguns momentos bem fortes (as duas últimas faixas, Nocturn e Aerial), outros meio estranhos (Sunset, que mais parece uma bossa nova que se torna flamenco na metade… bem esquisita), e algumas ótimas faixas mais calmas, como Somewhere in Between e a dupla Prelude/Prologue. Aerial pode não ser o melhor ou mais poderoso de seus trabalhos, mas é um ótimo álbum duplo, dedicado, corajoso e de grandes méritos; um retorno mais do que bem vindo. Dois anos após o lançamento de Aerial, em 2007, Kate gravou uma nova música: Lyra, ótimo tema do filme The Golden Compass, uma adaptação deplorável da obra de Phillip Pullman. Mas após essa faixa, Kate pareceu ter entrado em um novo hiato.


DIRECTOR’S CUT

Hiato esse que, felizmente, foi quebrado em 2011, com o anúncio de novo material inédito da artista; não só um, mas dois álbuns inéditos! O primeiro deles, Director’s Cut, contendo regravações de faixas dos álbuns The Sensual World e The Red Shoes. O segundo, 50 Words for Snow, contendo somente faixas inéditas. Director’s Cut foi uma grata surpresa, apresentando versões diferentes de canções marcantes como Deeper Understanding (que ganhou um clipe dirigido pela própria Kate Bush), This Woman’s Work e Moments of Pleasure (que dessa vez não contém mais o trecho “to those we love, to those who will survive“…), assim como The Sensual World, renomeada como Flower of the Mountain e referenciando diretamente a obra de Ulysses, já que dessa vez Kate obteve permissão para usar frases do livro na composição, versões melhoradas de canções fracas de The Red Shoes, e até mesmo uma curiosa e simpática versão de Rubberband Girl inspirada em indie rock, faixa que encerra o álbum.

Deeper Understanding

Director’s Cut foi o primeiro álbum da artista a ser lançado através de seu próprio selo, Fish People, e foi gravado utilizando somente material analógico – em contraste ao álbum The Red Shoes original, gravado utilizando técnicas digitais, que Kate não gostou. Por isso mesmo, a versão deluxe de Director’s Cut inclui The Sensual World e uma versão analogicamente remasterizada de The Red Shoes. Director’s Cut é um álbum muito bem vindo em sua discografia, apresentando canções que em sua maioria são melhores que as originais. E as que não são melhores, são unicamente boas e possuem seus méritos.


50 WORDS FOR SNOW

50 Words for Snow é um álbum introspectivo e minimalista, composto em sua maioria por longas canções contendo como instrumentos principais piano e voz. Wild Man, single que precedeu o lançamento do álbum, é sua faixa mais acessível e tem a participação do cantor Andy Fairweather Low para contar a história de um grupo de pessoas que encontram pegadas do lendário Yeti nos campos de neve do Himalaia, e que as cobrem por compaixão, sabendo que ele poderia ser caçado e capturado caso o encontrassem. O álbum é inteiramente composto por canções que remetem ao inverno e à neve, o completo oposto do clima verânico que compõe Aerial.

Wild Man

Snowflake, faixa que abre o álbum, é um dueto entre Kate e seu filho Albert, composta com sua voz fina de garoto em mente. Em Snowflake, Albert interpreta um floco de neve, em uma canção que narra a esperança em um mundo prestes a ser dominado por uma tempestade de neve. Lake Tahoe, segunda faixa do álbum, tem o auxílio de dois vocalistas de coral, em uma canção sobre o fantasma de uma mulher em vestes vitorianas, raramente vista, chamando por seu cachorro Snowflake. Misty, canção mais longa do álbum, é contada sob o ponto de vista de um boneco de neve apaixonado, que se derrete após uma noite de paixão. Snowed In at Wheeler Street, dueto com Elton John, é uma trágica história de amor, um casal que se vê eternamente separado. A faixa título, 50 Words for Snow, conta com a participação do ator Stephen Fry, recitando exatamente cinquenta sinônimos diferentes para neve; a canção tem inspiração no mito dos esquimós possuírem sinônimos diferentes para a neve, e como não conseguiu encontrar todos eles, Kate acabou fazendo alguns próprios significados. A canção é uma dos pontos mais fortes do álbum e um prelúdio bem contrastante à última faixa, Among Angels, uma belíssima canção de amor que encerra o álbum com exatamente o mesmo acorde no piano que inicia Snowflake.

Mistraldispair (Misty)

Eider Falls at Lake Tahoe

50 Words for Snow ganhou três vídeos, um deles para Wild Man, criado pela Brandt Animation; os outros dois dirigidos pela própria Kate Bush. O primeiro deles, Mistraldespair, contém parte da canção Misty e foi animado por Gary Pureton. O segundo, Eider Falls at Lake Tahoe, é uma belíssima animação em preto e branco com marionetes, incluindo parte da canção Lake Tahoe. Ambos os vídeos demonstram o talento de Kate como diretora e só reforçam o apreço por um álbum tão refinado, que não só é um grande marco em sua carreira, como também um dos melhores álbuns do ano passado. É impressionante como um álbum tão simples consegue ser tão complexo e bem construído, tão calmo e harmonioso e ao mesmo tempo com uma carga emocional tão forte. 50 Words for Snow é uma prova de que o tempo pode passar, mas o talento de Kate Bush não; pelo contrário, apenas se aprimora.


COLABORAÇÕES E OUTROS PROJETOS

Além de seus próprios álbuns, Kate Bush também colaborou com diversos artistas e projetos:

  • Peter Gabriel, em dois de seus álbuns (Peter Gabriel, de 1980, e So, de 1986), mais precisamente nas faixas Games Without Frontiers, No Self Control e Don’t Give Up;
  • Prince, em seu álbum Emancipation, de 1996, na faixa My Computer;
  • Roy Harper, em dois de seus álbuns (The Unknown Soldier, de 1979, e Once, de 1990), mais precisamente nas faixas You e Once;
  • Big Country, no álbum The Seer, de 1986, na faixa título;
  • Midge Ure, no álbum Answers to Nothing, na faixa Sister and Brother;
  • Lionel Azulay, na faixa Wouldn’t Change a Thing, gravada nos anos 90 mas ainda sem lançamento;
  • Rowan Atkinson, em um divertido dueto para um especial da TV britânica, na canção Do Bears Sha-La-La;
  • David Gilmour, amigo de longa data de Kate Bush, no Royal Festival Hall de 2002 em Londres, um dueto na faixa Comfortably Numb;
  • Produziu, para o artista Alan Stivell, a faixa Kimiad de seu álbum Again (Stivell também participou de The Sensual World);
  • Colaborou com uma frase para o single de caridade Spirit of the Forest, em 1989;

Seus projetos não estão limitados a álbuns de estúdio, mas também canções para trilhas sonoras e até mesmo atuação em filmes:

  • Atuou no filme Les Dogs, de 1990, produzido pela The Comic Strip para a BBC;
  • Escreveu a canção Ken, escrita sobre Ken Livingstone, líder do Greater London Council, para o filme GLC, também da Comic Strip;
  • Escreveu a canção The Magician, em 1979, para o filme The Magician of Lublin;
  • Escreveu uma canção para o filme Dinosaur, da Disney, que não foi lançada porque a Disney pediu para que ela reescrevesse, algo que ela se recusou a fazer;
  • Além das já mencionadas colaborações para os filmes Brazil, Castaway, She’s Having a Baby e The Golden Compass.

Nada do que Kate Bush faz é sem sentido. Até mesmo seus trabalhos mais fracos possuem algum significado, e ela consegue introduzir referências ocultas até nas coisas mais simples, como o símbolo “KT” escondido em todas as capas de seus álbuns até The Red Shoes. Compositora, intérprete, arranjadora, toca piano, violino, fairlight, guitarra, baixo, é bailarina, coreógrafa, produtora, diretora e até karateka. Kate Bush pode ser descrita como uma artista com A maiúsculo, completa em todos os quesitos, influente em tudo que fez. Não é exagero dizer que sem ela a música como conhecemos hoje não seria a mesma e nem teria a mesma graça. E para encerrar, uma boa notícia: em meados do lançamento de Director’s Cut, Kate Bush anunciou que não descarta a possibilidade de voltar a fazer shows, nem mesmo uma tour, e que provavelmente o fará algum dia. Ou seja, nunca devemos perder a esperança de vê-la ao vivo algum dia. Fica aqui nossa homenagem a essa grande artista, essa obra de arte viva, que esperamos que continue encantando o mundo por muito tempo.

Uma pequena curiosidade: minha mãe, que também é cantora, possui um timbre de voz similar ao de Kate em sua fase no início dos anos 80 (Never For Ever e The Dreaming) e se inspira em seu trabalho. Ainda vou convencê-la a gravar um cover de Wuthering Heights. :)

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4 Comments

  1. Ótimo Texto! Adoro Kate Bush. Seria engraçado, se não fosse trágico o fato de eu adorar a maior parte das músicas dela, mas não simpatizar com Wuthering Heights…vai entender…

  2. Adorei o texto, muito completo (assim como a Kate)! :D
    É impressionante como tudo que ela faz tem uma inspiração inesperada, mas muito bem-vinda!

  3. MUITO obrigada por esse texto, graças a ele que me interessei ainda mais pelo trabalho dessa artista incrível, já me considero uma grande admiradora da Kate.
    btw, tô amando o site!

  4. Por isso não me canso de dizer que essa mulher estava anos a frente do seu tempo: não precisou apelar à sexualidade, embora ela seja muito sensual, naturalmente; não se rebaixou, como as outras e, talvez, por isso tenha sido “esquecida” por alguns. Apesar de eu já ter quase meus 20 anos, vejo que as músicas verdadeiras, dos anos 70-80-90, só existiram mesmo por causa de gênios. Kate foi uma das poucas que manteve sua doçura e talento fiéis durante toda carreira, e mudou o POP.

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