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[Livro e Filme] Drive

[Livro e Filme] Drive

Personagem principal sem nome próprio, carros rigorosamente descritos pela marca, modelo e cor. Escritura categoricamente fenomelógica, aprofundamento introspectivo sem freios cronológicos. Narrativa em estreita focalização interna e narrador em destacada terceira pessoa. Linearidade marcada pelas sequências com ampla utilização de chamadas e respostas, ordem da narrativa extremamente antilinear com capítulos individuais que vão e voltam no tempo. Drive, do escritor norte americano James Sallis, é um romance cheio de contradições, um hardboiled suspenso a partir de uma atmosfera rarefeita em que a ação é congelada por um estranho olhar alienado.

Nomade por destino, errante por necessidade, motorista por vocação, Driver (como é chamado no livro) não tem um filosofia de vida própria, mas sim alguns princípios pessoais como uma ovelha desgarrada que age por puro instinto de sobrevivência. Circundando o protagonista, um verdadeiro desfile de personagens marginais, presenças inquietastes e impalpáveis como fantasmas. Até mesmo a mãe de Driver, gentil e taciturna, mas capaz, em uma fúria assassina, de perfurar a garganta do marido. E personagens como o velho Doc, lendário fornecedor de drogas semi legais para as pessoas em Hollywood e médico clandestino de imigrantes e marginais. E para encerrar o desfile, Nino e Bernie, mafiosos do Brooklyn que se mudaram para Los Angeles porque Nova York não era mais cidade para eles e a Califórnia não “soava nada mal”.

Não muito tempo depois, enquanto ele se sentava com as costas apoiadas numa das paredes de um Motel 6 nem ao norte de Phoenix, observando a poça de sangue crescer em sua direção, o Piloto poderia imaginar que havia cometido um erro terrível.

Drive não se lê, se visualiza. Como se fosse um roteiro escrito por Walter Hills, impossível não visualizar o homônimo protagonista de The Driver (Caçador da Morte), do diretor, drenado pelo rugido lacônico de Monte Hellman e sua obsessiva atenção aos detalhes técnicos dos anti herois de Two-lane Balcktop (Corrida Sem Fim). Desta forma, era quase impossível que o romance de Sallis não chegasse às telas do cinema. E não surpreende que a adaptação tenha sido feita por Nicolas Winding Refn, a matéria narrativa parece adequar-se perfeitamente a poesia do diretor dinamarquês: “a arte é um ato de violência“. Assim como a primazia existencial da intuição: “algo que lhe permite fazer conexões”. Um hardboiled que sob o escudo de lâminas de aço abriga uma graça terrível e excruciante. A melancolia de Driver, uma complexidade de sentimentos e reflexões sobre o próprio destino acompanha o leitor através de uma América que pulsa de forma vibrante ou se contrai lentamente.

A versão cinematográfica foi capaz de transportar o romance para o cinema. Refn fez um bom uso dos recursos cinematográficos e soube passar para as telas todo clima sugerido no livro. O filme acentua seus aspectos românticos. Driver (interpretado por Ryan Gosling) se apaixona por Irene (Carey Mulligan) e para defendê-la se expõe em primeira pessoa. No livro, ao contrário, o protagonista demonstra já nas primeiras páginas um potencial psicótico que se potencializa e torna-se evidente antes que a ocasião se apresente. Mas Drive é um filme honesto, Refn foi gravar nos EUA sem se prostituir (não literalmente, é claro), mantendo intacto o próprio modo de fazer cienema e não renunciando a nenhum dos ingredientes que fizeram objeto de admiração entre os europeus: brutal e violento, romântico e inimista, mas acima de tudo, hiperrealista. O diretor trouxe seu silêncio e seu estilo penetrante tipicamente europeu alternado com perseguições frenéticas pelas estradas perdidas lynchianas, com momentos de violência inesperados e uma extraordinária tendência para o splatter.

A atmosfera anos 80, a partir dos créditos iniciais, se mostra rarefeita tornando-se depois, passo a passo enquanto os minutos se passam, sempre tensa e elétrica. A fotografia de Thomas Siegel, eloquente mas não exagerada, quase contida, excede um pouco no envelhecimento das imagens em algumas ocasiões, mas vai de encontro com a escolha de gravar quase completamente em digital. A escolha do protagonista também foi de grande valia para o filme apesar de uma trama não muito original, que se molda perfeitamente a situações de filmes e diretores que fizeram a história do cinema americano, de Brian de Palma a David Lynch. Ryan Gosling se mostra o artista perfeito no papel certo: completamente inexpressivo como se imagina o protagonista do livro, se funde com o próprio personagem em um interpretação sem excessos, se colocando entre melhores atores de sua geração. Obviamente o motorista solitário que interpreta é o próprio símbolo do filme, o melhor entre os vários personagens, alguns muito bons e outros nem tanto, mas acima da média graças a dilatação dos diálogos, sempre muito convincentes. A trilha sonora ao estilo oitentista se encarrega do resto, prova de uma cinematografia que faz da elegância formal sua força, completa a história e acompanha as melhores cenas até o grande final. Em particular, três músicas caracterizam o filme:

Nightcall, de Kavinsky & Lovefoxxx, abertura do filme

A Real Hero, de College (feat. Electric Youth)

A clássica cena do elevador com Under Your Spell, de Desire (Aviso: contém spoilers! Ouça somente a música logo abaixo do vídeo)

:http://moonflux.com/wp-content/uploads/2012/05/02.-Desire-Under-Your-Spell.mp3|titles=02.

O filme complementa visualmente o livro, mas para quem assistiu o filme primeiro, o romance de James Sallis é uma ótima oportunidade para se aprofundar em alguns detalhes que não foram mostrados no cinema, como o aprofundamento maior na vida do personagem e sua história. Neste caso o livro também complementa o filme de forma bastante harmônica.

No início de abril, foi lançado um novo romance que dá sequência de a história de Drive. Entitulado Driven, o livro foi escrito pelo próprio Sellis graças ao sucesso obtido com a película de Refn e imagina-se que ganhará uma versão para o cinema. E como sempre, é impossível não se perguntar se a continuação será capaz de manter o nível do filme. Especula-se que o filme será transportado novamente para as telas novamente com a dupla Refn e Gosling. Não seria conveniente mudar o ator protagonista nem o estilo do diretor. De qualquer, a questão fica no ar, levando em conta que a tumultuada agenda e a finalização de Only God Forgives, o novo filme de Refn também estrelado por Ryan Gosling. Sobre o novo livro de Sallis, adiantamos a breve sinopse oficial fornecida pela editora americana: “Seis anos depois – Phoenix. Surgido do nada, alguém quer Driver morto. Quem? Por quê? Grande erro…”
Agora é esperar para ler e consequentemente, ver.

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