[Livro] Anna Karenina

2012 - ago Postado por Pietro Milan Nenhum comentário

Depois da adaptação de Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito), o diretor inglês Joe Wright agora se envolve na adaptação de outro gigante literário: Anna Karenina de Lev Tolstoy, enésima transposição para o cinema do livro que Vladimir Nabokov definiu como a obra prima absoluta da literatura do século dezenove e que Dostoievsky descreveu como um exemplo de perfeição total. O filme, cujo lançamento está previsto para novembro, com Keira Knightley (Lizzy em Pride and Prejudice) no papel de Anna, é a demonstração de uma popularidade que dura desde 1877, ano no qual o romance foi publicado.

Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira.

Obra prima do Realismo, Anna Karenina é um romance circular (se inicia com a morte violenta de um trabalhador e termina da mesma forma, com o suicídio de Anna) que trata de assuntos de interesse atual através da análise de três relações amorosas: a de Dolly e Oblonsky, de Kitty e Levin e, enfim, Anna e Vronsky. Como um testemunho sobre o que Tolstoy pensava sobre o matrimônio (tema também tratado no curto romance Sonata a Kreutzer, em que um marido assassina a mulher considerada infiel), a obra se baseia em um casamento fracassado, o de Dolly e Oblonsky, irmão de Anna. Em São Petersburgo é chamada pelo irmão para interceder a seu favor com sua mulher, que descobriu sua infidelidade.

Anna, casada com um oficial do governo, Karenin, viaja até Moscou, onde na estação presencia a morte de um trabalhador atropelado por um trem: um presságio que marca o início do declínio que se agrava até seu ápice no final do romance, em uma espécie de expiação da culpa que a oprime durante toda a história. Os três relacionamentos descritos por Tolstoy são o símbolo das relações amorosas e seus diversos resultados possíveis: Dolly e Oblonsky se reconciliam não por amor, mas por comodidade. Não obstante a falta de sentimento, seu matrimônio, fundamentado através a aceitação das leis hipócritas que regem a sociedade russa, funciona. Levin e Kitty, o outro casal que serve como uma alegoria para o casamento, são  os únicos a alcançar um status real de serenidade. E finalmente, Anna e Vronsky, o símbolo de um amor que nasceu e cresceu fora das convenções sociais, e por estas destruído.

É um sentimento penoso o de fugir, o de encontrar-se com um homeme e ter que considerá-lo quase como um inimigo.

Sob o pretexto de abordar a arruinada história de amor entre Anna e Vronsky, culpada por ser fundamentada na paixão (a paixão feminina, ainda mais grave) e de infringir a própria existência de leis sociais, Tolstoy aborda seus temas preferidos: em primeiro lugar a hipocrisia da sociedade russa, na qual homens e mulheres frequentemente mantém relações extraconjugais com a aprovação de todos, mas reservando-se ao direito de excluir a mulher dos círculos sociais (não o homem. Vronsky continua a ser recebido em todos os círculos aristocráticos). Anna deixa o marido Karenin e seu filho, traindo o papel primordial de uma mulher: o de esposa e mãe. Infringe uma instituição sagrada, como é o vinculo matrimonial, para fugir e viver como concubina de um homem (Vronsky) pelo qual se apaixonou. Anna representa a crítica mais feroz e ao mesmo tempo a demonstração de todos os subterfúgios e as mentiras nas quais se fundamenta a boa sociedade russa. Por isso a própria sociedade tem a necessidade de esconder Anna, ocultando assim os seus próprios pecados.

Eu acredito que nenhuma atividade pode ser duradoura se não for baseada no interesse próprio. Esta é uma verdade geral, filosófica.

E seu segundo tema preferido, a fé em Deus. Embora religioso, Tolstoy repudiava os dogmas da instituição e criticava avidamente a Igreja Ortodoxa Russa e a forma com que escravizava seus fieis (o que lhe rendeu a excomunhão),  acreditando que Deus estava nas próprias ações do homem e Jesus Cristo era seu modelo de conduta. Desta forma, na visão de Tolstoy, a destruição de Anna se inicia quando esta se rende não ao desejo carnal, que se temporário e limitado ainda legitimado, mas à paixão, a uma paixão cega que não conhece nem Deus nem a razão. Para a protagonista somente o amor de Vronsky importava e quando este se revela um homem imperfeito como qualquer outro, o ciúme a consome, destrói o amor e destrói a ela mesma, até a levá-la, em uma espiral de desespero e loucura, à morte. Dolly, que ao invés segue as regras pré estabelecidas, consegue cominar o ciúme, vivendo uma vida medíocre e um matrimônio sem amor, mas, de acordo com a moral comum, funciona. Kitty, por sua vez, é espiritualizada, e sua fé a leva a viver um matrimônio não passional, sem muitos prazeres, mas sereno e leal.

A razão foi dada ao homem para se livrar-se do tédio.

Mas é previdentemente através da figura de Levin (uma espécie de alterego do próprio autor) que Tolstoy trata de forma bem clara suas ideias em relação a Deus; vítima de suas paixões e infeliz no início do romance, Levin entra em contato com o amor por Deus, substituindo as paixões carnais pela procura espiritual: uma passagem que salva sua existência e lhe concede a chave da paz interior, pois na visão idealista de Tolstoy o único ser que se pode confiar é o próprio Deus. Os homens, sendo imperfeitos, são a causa do sofrimento para o próximo: fazer de um ser humano o próprio deus proporciona uma falsa felicidade, causa da própria destruição. A única salvação possível, dentro da jaula social, é a espiritual. O homem na visão pessimista de Tolstoy não nasceu para ser feliz, mas apenas para perseguir (por sua conta e risco) tal felicidade, e ao contrário dos existencialistas do século vinte, como Jean-Paul Sartre, não somos livres para procurar o próprio sentido de nossas vidas.

Ao longo dos anos muitas versões da obra  foram feitas, tanto para o cinema como para a televisão. No cinema, a primeira adaptação de Anna Karenina foi feita em 1911 por Maurice Maître. Mas a primeira adaptação genuinamente russa da obra, porém, foi realizada em 1914, com Mariya Germanova, famosa atriz de teatro que nunca havia trabalhado em um filme. O diretor teve algumas dificuldades para fazer atuá-la com espontaneidade na frente das câmeras, o que não agradou aos críticos na época. Nos Estados Unidos a primeira versão foi filmada em 1927 por Edmund Goulding com o título Love e em 1935 por George Cukor. Ambos com no Greta Garbo no papel principal, a mais célebre Anna Karenina do cinema. Contudo, a habilidade de Tolstoy para envolver o leitor em primeira pessoa nos sentimentos descritos é única e insubstituível, mas de qualquer forma, seja através da imaginação do leitor ou das atrizes que lhe deram vida e ainda lhe darão, Anna Karenina sempre será um personagem tão imortal e controverso quanto seu criador.

Toda a verdade, todo o deleite, toda a beleza da vida é feita de sombra e luz.

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