[Jogo] Street Fighter x Tekken

2012 - mar Postado por Bruno Colli 3 comentários

Após quase uma década sem desenvolver jogos de luta (Capcom Fighting Evolution não conta), a Capcom retornou ao gênero com grande estilo em 2008, quando lançou em um curto intervalo de tempo os títulos Street Fighter IV e Tatsunoko vs. Capcom. O primeiro foi responsável por reviver a franquia do jogo de luta mais famoso de todos os tempos, enquanto o segundo foi uma grande surpresa por ressuscitar a série Versus, que coloca personagens da empresa contra outras franquias, como Marvel e SNK. O sucesso de ambos os jogos abriram caminho para pseudo-sequências e upgrades de Street Fighter IV e uma continuação de Marvel vs. Capcom 2, sucesso entre os fãs de jogos de luta até hoje, lançada onze anos após o último.

Há alguns anos, mais precisamente em 2005, a Capcom havia trabalho com a Namco, empresa famosa por títulos como Pac-Man, Ace Combat, Tekken, Tales of, Soul Calibur e a maioria dos jogos de Digimon, em um jogo da série Versus, Namco vs. Capcom, lançado para o Playstation 2. Porém, NvC era um título de RPG/estratégia, bastante diferente do que os fãs esperavam, e foi lançado somente no Japão devido aos problemas de licenciamento de alguns personagens do jogo. Seis anos mais tarde, eis que o aguardado por muitos fãs foi anunciado: Street Fighter x Tekken, jogo de luta multiplataforma reunindo diversos personagens de ambas as séries. Não era exatamente um Namco vs. Capcom de luta, mas foi o suficiente para surpreender os fãs.

Street Fighter X Tekken (o X, pronunciado como cross, representa que, diferente de outros jogos da série Versus, não há uma parceria entre personagens das franquias diferentes, mas sim rivalidade) utiliza a mesma engine de Street Fighter IV e reúne personagens de diversos capítulos de cada série, dos mais antigos e óbvios, como Ryu e Kazuya, aos mais recentes, como Juri e Alisa Boskonovich. Também marcou a estreia da personagem Poison, a transsexual de Final Fight (que se passa antes de Street Fighter) presente como jogável pela primeira vez (bem, segunda, mas o primeiro jogo onde era possível controlá-la, Final Fight Revenge, era tão ruim que nem deve ser levado em consideração).

Porém, o jogo causou controvérsias antes mesmo de seu lançamento. A presença de alguns personagens, como Rufus, de Street Fighter IV, não agradou os fãs, que preferiam outros em seus lugares, como no caso de Rufus, a sumida R. Mika. Outro fator que pesou bastante foi a quantidade elevada de personagens exclusivos para a versão do jogo desenvolvida para o Playstation 3. No caso de três deles, como Cole, da série inFAMOUS (que não tem motivo algum para estar aqui e nem é de nenhuma das duas empresas), e os mascotes da Sony, os gatinhos Toro e Kuro, era perfeitamente justificável que fossem exclusivos para o console. Mas no caso de Mega Man e Pac Man, não faria sentido que fossem exclusivos. A desculpa da Capcom foi a de que tentaram desenvolver exclusivos para os donos de X360, mas por desacordos nas negociações e falta de tempo, a ideia foi deixada de lado.

E por falar em Mega Man, a versão do personagem presente no jogo soa um verdadeiro desrespeito com os fãs, já que é baseada no desenho terrível presente na caixa americana do primeiro jogo para o NES. Isso sem contar que o personagem foi incluso após o personagem ter dois de seus futuros jogos cancelados, então era no mínimo esperado que o robozinho azul fizesse uma aparição decente, mas não foi o que aconteceu.

Enfim, em março desse ano, o jogo foi lançado e todos podem apreciar o resultado final. A história, apesar de simples, é surpreendentemente decente para um jogo cujo roteiro deveria ser só uma desculpa. Um misterioso objeto cúbico vindo do espaço cai na Terra, mais precisamente na Antártida. Cientistas de todo o mundo pesquisam sobre o objeto em questão, com o intuito de descobrir de onde veio e para que serve. A única informação que descobrem é que o objeto lança uma espécie de energia quando algum conflito acontece perto do mesmo, deixando as pessoas envolvidas no conflito próximo a ele mais poderosas e sanguinárias. Devido à tendência do objeto em reagir em conflitos, ele passou a ser chamado de Pandora.

Assim como nos jogos da série Versus mais antigos, é possível escolher entre dois personagens e alternar entre eles no meio da luta. Ao contrário dos jogos da série Vs. Capcom, os personagens das respectivas séries fazem parcerias oficiais com outros personagens de suas séries de origem, como Ryu & Ken e Kazuya & Nina. Essas duplas oficiais possuem histórias únicas no modo Arcade, mostrando a jornada dos personagens escolhidos até a Antártida, com diversos intuitos, seja encontrar pessoas do passado, ficarem mais poderosos, destruírem Pandora ou absorverem toda sua energia. Nada impede que o jogador forme uma dupla não padronizada, mas dessa forma ele receberá um final genérico, assim como os jogos da série King of Fighters, onde somente os times padrão possuem finais.

A jogabilidade de Street Fighter x Tekken é bastante parecida com Street Fighter IV (até por utilizar a mesma engine que este), mesclada com alguns elementos de Marvel vs. Capcom 3, como a (óbvia) troca de personagens durante as lutas e os combos combinando ataques de ambos. Também há um sistema de gemas utilizadas na batalha, que podem causar diversos status nos personagens e podem ser customizadas; um sistema similar ao antigo Marvel Super Heroes, mas totalmente melhorado. E a maior novidade está no modo Pandora, onde um personagem que estiver com energia bem baixa se suicida (!!!!) para deixar seu parceiro mais poderoso e podendo ganhar a luta facilmente dessa forma.

Apesar de ser muito interessante poder jogar com personagens de Street Fighter que fazem sua estreia nos consoles HD, como Elena, Rolento, Poison e Hugo, a maior novidade está em poder controlar os personagens de Tekken em uma jogabilidade 2D pela primeira vez. Tekken nunca possuiu conceitos padrão como super moves, golpes especiais, e é muito interessante observar como a Capcom desenvolveu e adaptou seus golpes, tornando cada uma de suas características únicas e divertidas. Também é muito divertido poder realizar o sonho de qualquer fã da série Versus e botar quatro personagens para brigarem de uma vez só. Porém, as caracterizações dos personagens, suas personalidades, aspectos e motivações com outros personagens estão bastante exagerados, se comparados como eles são nas séries de origem dos mesmos, especialmente os de Tekken (como é o caso de Lili, que é ainda mais arrogante e esnobe do que em Tekken), e algumas parcerias podem parecer um pouco forçadas.

Os gráficos são praticamente os mesmos padronizados por Street Fighter IV, mas os cenários estão muito mais bonitos e detalhados do que de costume. Diversos deles homenageiam outras séries da Capcom, como Final Fight e Dino Crisis, mas somente um faz referência a Tekken. Em todos os cenários indicados é possível observar personagens de franquias de ambas as empresas assistindo as lutas, ou fazendo outras atividades, como Sodom de Final Fight dançando (?!) ou Kunimitsu de Tekken instruindo outros ninjas. Há também cenários sem referências, inclusive um cenário onde um mamute que parece ter saído de Skyrim persegue a base onde os personagens lutam. Porém, a maioria dos finais dos personagens são bem ruins e pouco característicos dos personagens.

A trilha sonora também não faz feio. A maioria das músicas são remixes de canções presentes em trilhas sonoras de outros jogos das franquias e seguem o mesmo padrão de techno rock introduzido em Street Fighter IV e reutilizado em Marvel vs. Capcom 3. Mas enquanto alguns remixes de ambos os jogos citados ficaram aquém de suas versões originais, os remixes de SF x T são muito bem feitos e normalmente possuem pelo menos duas variações. Destaques: tema de Ogre, final boss de Tekken 3 e também para os personagens da Capcom neste; o de Akuma, que faz sua estreia como final boss não-secreto em um jogo aqui, para os personagens da Namco; o do Mishima Estate, excelente remix do tema de Heihachi em Tekken 2; o de Mad Gear Hideout, cenário onde estão presentes personagens de Final Fight; e finalmente os das batalhas rivais, ótimos remixes das músicas temas de Super Street Fighter IV e Tekken Tag Tournament.

As canções originais também não deixam a desejar, como é o caso do cenário da Antártida (vulgo cenário do mamute), um drum n’ bass acelerado, pesado e bem feito. Mas as canções do jogo que foram feitas por bandas reais, e que não fazem parte de nenhuma das séries tampouco foram feitas para o mesmo, como o tema de abertura e os temas dos trailers, são… horríveis. Não sei de quem foi a ideia de inserir bandinhas medíocres de Metalcore e hip hop nos trailers e na abertura, mas nesse quesito a Capcom parece estar precisando de um sonoplasta urgente. É como a decisão recente da Konami em colocar Korn pra compor trilha de Silent Hill, mais inadequado só se fosse um pagode na abertura ou algo assim.

Street Fighter x Tekken é um grande jogo de luta, ainda que não seja um exemplo de equilíbrio; alguns personagens são absurdamente mais fortes que outros; é normal em um jogo luta que certos personagens sejam mais fracos, mas SFxT exagera nesse quesito. Não é um jogo perfeito e o desrespeito com os fãs em alguns quesitos faça com que ele caia muito no meu conceito, mas ainda assim é um dos melhores jogos de luta da geração atual. A enorme quantidade de personagens (55 na versão PS3 e 50 na versão Xbox 360*), os gráficos lindos, a jogabilidade consistente (se descontarmos a falta de balanceamento) e os finais interessantes podem garantir diversão por muito e muito tempo.

AVALIAÇÃO:

*Street Fighter x Tekken possui, inicialmente, 43 personagens na versão PS3 e 38 na versão Xbox 360. Porém, 12 personagens foram anunciados como conteúdo baixável pela internet para ambos os consoles, mas ainda não foi liberado para nenhum dos consoles. O maior absurdo, porém, é que todos os personagens anunciados estão presentes nos discos de ambas as versões. Isso sem contar que verificando o disco da versão Xbox 360 é possível encontrar todos os dados dos personagens Mega Man e Pac Man, supostamente exclusivos da versão Playstation 3; ou seja, eles estão em ambas as versões mas só são jogáveis em uma. Possuo um Playstation 3, mas acho um enorme desrespeito com os jogadores esse tipo de atitude. E nem vou entrar no mérito do quanto é absurdo fazer o consumidor pagar por conteúdo que está disponível no disco, conteúdo esse que normalmente é liberado aos poucos e em uma faixa de cinco dólares por personagem (como é o caso de Marvel vs. Capcom 3). Portanto, quem está interessado em destravar unlockers (disponíveis para ambos os consoles), não perca tempo e procure um patch para rodar o jogo com todos os personagens disponíveis logo no início. Não gosto de encorajar métodos “ilegais” no blog, mas dessa vez abro uma exceção, até porque baixar um arquivo de 20kb (pelo menos o do PS3) que permite que você jogue a versão completa não é nada perto de fazer o consumidor pagar pelo mesmo.