[Jogo] Live a Live

2012 - ago Postado por Bruno Colli Nenhum comentário

Em setembro de 1994, a Squaresoft lançou, para o Super Nintendo, o jogo Live a Live, somente no território japonês (mas felizmente uma ótima tradução para o inglês feita por fãs está disponível na internet há alguns anos). Um projeto ambicioso, que contava com a presença de desenvolvedores dos jogos anteriores de Final Fantasy e da renomada compositora Yoko Shimomura na equipe, além de mangakás como Yoshihide Fujiwara, Yoshinori Kobayashi, Osamu Ishiwata, Yumi Tamura, Ryoji Minagawa, Gosho Aoyama e Kazuhiko Shimamoto, para ilustrações e character design de cada um dos capítulos. Live a Live conta a história de oito protagonistas distintos, em diferentes épocas de um mesmo mundo. Inicialmente, apenas sete personagens (e capítulos) estão disponíveis, em histórias distintas, mas compartilhando alguns temas em comum, como um vilão cujo nome é alguma variação de Odio.

Live a Live apresenta características infelizmente incomuns até hoje em jogos de videogame. Para começar, o sistema de batalha, onde o personagem pode se movimentar livremente por um campo aberto e os ataques podem ter diversos tipos de alcance. Isso é bastante comum em RPGs táticos, mas felizmente Live a Live oferece um sistema muito mais dinâmico, tanto quanto os RPGs táticos quanto os RPGs de batalhas em turno. Assim como em diversos RPGs antigos, seu personagem evolui conforme ganha níveis, e alguns aliados podem ajudá-lo no decorrer dos capítulos (mas não em todos). Antes do início de cada capítulo, há um prólogo apresentando o seu personagem, suas características, o ambiente em que vive e seu objetivo. Em todos os capítulos há uma running gag com um garoto chamado Watanabe e seu pai, que sempre morre em todos os capítulos (em alguns deles é necessário fazer certos requisitos para que ele apareça). Mas o que mais chama a atenção em Live a Live é que cada capítulo possui gênero de storytelling diferentes, com jogabilidades adequadas para cada um deles. Até mesmo a fonte utilizada nos capítulos é adequada ao gênero em que eles se passam! Para desenvolver melhor, farei uma apresentação de cada um dos personagens (incluindo o capítulo spoiler, escondido após o fim dos capítulos iniciais; clique em “mostrar” para ler sobre ele):


CONTACT

  Pogo / Caveman (Pré-História): Esse simpático garoto pré histórico é o habitante de uma caverna habitada por sua tribo, liderada por um homem bem mais velho. A companhia de Pogo é o gorila Gori, que serve como o segundo personagem do grupo, e um dos maiores comic reliefs do capítulo. O capítulo da pré-história é o mais engraçado de todo o jogo, e possivelmente um dos motivos para que o jogo nunca tenha sido lançado fora do Japão, pois é absurdo demais: um dos vilões, Zaku, não se veste com nada além de um lagarto que cobre suas “partes”, existem gorilas fêmeas com peitos gigantes que balançam, e a co-protagonista Bel pula na frente do herói pelada para deixá-lo constrangido/excitado/ambos. Também é um dos capítulos mais parecidos com um RPG tradicional, com uma equipe fechada, e provavelmente inspirou o capítulo da pré-história no jogo Chrono Trigger, devido às similaridades entre ambos. A habilidade de Pogo é sentir o cheiro de monstros que estão próximos, dessa forma podendo evitar as batalhas ou enfrentar todas para conseguir ítens. O capítulo pode cansar um pouco devido a certas batalhas frequentes e a localização difícil (e sem nenhuma indicação) de alguns ítens e chefes secretos, mas vale a pena e seu final é bastante surpreendente e divertido.


INHERITANCE

  Xin Shan Quan / Kungfu (China Antiga): Inspirado em filmes clássicos e literatura wuxia, Inheritance conta a história de Xin Shan Quan, que deseja passar suas técnicas secretas para alguém antes que elas morram com ele. Em meio ao treinamento de seus discípulos, Li, Yuan, e Sanmo, onde somente um herdará suas técnicas, ele também busca destruir um clã maligno, Yi Po Men Kung Fu, liderados por Odi Wang Lee, após uma série de eventos trágicos. Um dos capítulos mais tristes e dramáticos do jogo, e também um dos mais bonitos.


SECRET ORDERS

Oboro-maru / Ninja (Japão Feudal): O capítulo do ninja é um dos mais interessantes de Live a Live. Enviado em uma missão para descobrir os segredos de um clã maligno, liderado por Ode Iou, que possui conhecimento de poderes sobrenaturais, Oboro pode completar sua missão sem matar absolutamente ninguém (o que fará com que ele ganhe uma poderosa espada no fim do capítulo) ou matar todos que vierem pela frente. Como a missão é baseada em Oboro mantendo-se oculto e agindo como espião, a jogabilidade do capítulo remete aos jogos de espionagem, como Metal Gear e Tenchu (este último lançado alguns anos depois de Live a Live). Caso ele seja pego, é possível fugir das batalhas para que não precise matar o oponente. A habilidade de Oboro é utilizar uma capa que o deixa totalmente invisível (muito antes de Harry Potter, vejam bem).  O capítulo é repleto de armadilhas, possui dois chefes secretos (que não contam no número de mortes), reviravoltas, e até um final secreto bastante cruel caso o ninja decida abandonar sua missão.


WANDERING

  Sundown Kid / Western (Velho Oeste): Esse capítulo é baseado em de filmes de Sergio Leone e clássicos do gênero spaghetti western do cinema italiano, o capítulo do Sundown Kid possui um ritmo menos comum, em boa parte do tempo parecendo um filme interativo do que um RPG. Sundown Kid é um andarilho que possui somente seu cavalo como companheiro, e de repente, surge uma recompensa de ouro para quem matá-lo, algo que ele parece não se importar nem um pouco. Enquanto isso, ele chega em uma cidade, oprimida pela gangue Crazy Bunch, liderada por O. Dio. O resultado deste capítulo experimental é um dos melhores (e infelizmente mais curtos) do jogo. Sua jogabilidade é mais baseada na resolução de um puzzle (que ajudará bastante na batalha final do capítulo) e determinadas escolhas que podem até mudar seu final.


THE STRONGEST

Masaru / Wrestler (dias atuais): O capítulo de Masaru é baseado em luta livre (retratado como se fossem lutas de verdade, claro) e também em jogos de luta como Street Fighter. Todos os seis oponentes são chefes que podem ser escolhidos em qualquer ordem. Assim como os Blue Mages de Final Fantasy, Masaru obtém suas técnicas ao ser atacado com elas, e após derrotá-los, acaba fazendo amizade com todos eles. Mas o último oponente, Odie Oldbright, mata brutalmente todos eles com um sorriso no rosto simplesmente por acreditar ser o melhor, e Masaru decide vingar todos eles.


FLOW

Akira / Mecha (futuro próximo): Akira é um garoto com poderes psíquicos e sua habilidade principal é a de ler mentes. Esse capítulo é inspirado em desenhos japoneses de robôs gigantes, como a famosa série Gundam, e também do renomado mangá e longa metragem AKIRA. É um tanto difícil de ser terminado sem um guia, já que não há muitas indicações do que fazer em determinadas ocasiões. A história é simplesmente brutal e cruel, como de costume nesse gênero, e são pouquíssimas as pessoas que valem a pena neste mundo. Mas o mais legal deste capítulo é a possibilidade de pilotar um robô gigante que mais parece um cruzamento de Gundam com Megazord com um painel de Las Vegas no fim.


MECHANICAL HEART

Cube / Sci-fi (futuro): A inspiração do capítulo de Cube vem de filmes de terror e ficção científica. O simpático robozinho Cube presencia a morte dos tripulantes da nave em que habita, um por um, nas mãos de um ser misterioso que ninguém consegue descobrir quem é. Também é o único capítulo com um jogo dentro de um jogo, o simpático Captain Square, desenvolvido pela fictícia Arumat Soft (Arumat = Tamura ao contrário, indicando o sobrenome da character designer do capítulo, Yumi Tamura). Cube protagoniza uma história repleta de drama e suspense em um dos capítulos mais melancólicos e interessantes de Live a Live. Há somente uma batalha em Mechanical Heart, mais precisamente em seu final.


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KING OF DEMONS

Oersted / Knight (Medieval): O capítulo do cavaleiro Oersted é o mais parecido com um RPG tradicional antigo: ambientado um cenário medieval bastante característico de jogos de fantasia como Dragon Quest, Oersted possui três companhias: o mago Straybow, o padre Uranus e o cavaleiro Hash. Apesar de bastante curto, é um capítulo cheio de reviravoltas, com um final bastante amargo e chocante, levando diretamente ao último capítulo, que pode ter diversos finais diferentes.


Live a Live possui uma dificuldade bastante alta para quem não está acostumado, e em alguns momentos é bem difícil de jogar sem um guia, já que não há indicação nenhuma do que fazer em determinadas horas. Alguns capítulos também se estendem demais, enquanto outros deveriam ser mais longos. Não é um jogo perfeito e essas falhas podem afastar quem não é muito paciente ou não gosta de recorrer à estratégias para terminar um jogo. Ainda assim, o resultado final surpreende positivamente graças a tanta diversidade e carisma, além dos múltiplos finais diferentes que o jogo oferece.

É uma pena que Live a Live não tenha obtido tanto reconhecimento como as séries mais famosas da Square, como Final Fantasy, Kingdom Hearts e Chrono. Apesar de ser um jogo bastante difícil e das histórias parecerem inicialmente comuns, é um exemplo de inovação nos jogos, com um sistema de narrar histórias pouquíssimo utilizado (isso se utilizado em algum jogo) desde então. Recomendado mesmo para aqueles que não apreciam tanto o gênero, já que o sistema de batalha prático de Live a Live, assim como as diferentes jogabilidades em seus oito capítulos diferentes, oferecem variedade o suficiente para distinguí-lo da maioria.

AVALIAÇÃO: