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[Indicações] Documentários de Werner Herzog

[Indicações] Documentários de Werner Herzog
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A poética extrema de Werner Herzog encontra no documentário uma dimensão ideal, feita de obsessões e temas recorrentes, nos quais o diretor alemão constrói sua peculiar visão pessoal do homem e da natureza. Artista não convencional, tem sido bem-sucedido desde sua estréia o cinema em 1962 com o curta Herakles (Hércules), e com maior evidência a partir de 1968 com seu primeiro longa Lebenszeichen (Sinais de Vida), levando adiante a ideia de um cinema livre de qualquer rótulo ou simplificação, capaz de desfrutar das potencialidades do documentário para refletir sobre os diferente níveis da verdade.

Emmanuel Carrère, em seu livro sobre Herzog de 1982, descrevia o diretor como uma figura complexa profundamente imersa no passado, não anti-modernista, mas de um certo modo, romântico, sempre a procura de paisagens e histórias capazes de definir com precisão a condição humana. Mesmo pertencendo, pelo menos cronologicamente, aquele seleto grupo de grandes diretores como Rainer Werner Fassbinder, Edgar Reitz, Volker Schlöndorff e Alexander Kluge, citando apenas os mais conhecidos, que, entre os anos sessenta e setenta revolucionaram o panorama cinematográfico alemão, Herzog mostra-se, desde sua estreia, como uma figura isolada e particularmente dividida entre ficção e documentário, mas sempre orientado à utilização de uma linguagem mordaz, mística e visionária. Alérgico a qualquer tipo de sentimentalismo gratuito, Herzog observa o homem para evidenciar sua natureza corrompida; ciente dessa condição insuperável não renuncia às representações das imperfeições inatas do homem, que em alguns casos atinge os sublimes limites da loucura.

A tudo isso acrescenta-se a representação herzoguiana da paisagem, analisada em toda sua esmagadora força romântica, palco perfeito para personagens heróicos e inquietos. Herzog não está em busca da beleza, mas de uma exploração consciente do sublime, descoberto em seus aspectos mais inacessíveis. Desta forma, entre homem e natureza se instaura um encontro titânico, no qual arte e vida se interligam intimamente deinindo uma realidade que não tem medo de mostrar sua face mais triste e melancólica.


ECOS DE UM IMPÉRIO SOMBRIO (1990)
(Echos Aus Einem Dürsteren Reich)

Imagens grotescas, trechos documentais, música de Bach, imagens surreais, música de Vivaldi, testemunhos e testemunhas interessados e desinteressados. Mais que um documentário sobre um tirano acusado de crimes hediondos (até mesmo de canibalismo), Echos aus einem düsteren Reich (Ecos de um Reino Sombrio) é um estudo sobre a natureza do poder despótico, sobre a instabilidade, a mentira e os horrores da realidade. O documentário é composto principalmente por entrevistas efetuadas pelo jornalista Michael Goldsmith com diversos personagens ligados ao ditador: duas de suas mulheres, alguns de seus numerosos filhos, dois de seus advogados e o ex-presidente da República Centro-Africana, David Dacko.

Às entrevistas de Goldsmith, Herzog incorpora filmagens de arquivo, particularmente relativas à sua esplêndida cerimonia de coroação e seu processo, compondo um retrato antropológico de Jean-Bédel Bokassa, do qual emergem o delírio da onipotência e a tragédia de sua própria figura; uma abordagem documental “humanista” muito bem-sucedida, unida a uma leve aprofundamento histórico-político. Contudo, a força do filme consiste no poder das imagens aliadas à trilha sonora que proporcionam a melhor forma o que foi, provavelmente, o fenômeno Bokassa.


LIÇÕES DA ESCURIDÃO (1992)
(Lektionen in Finsternis)

Terminada a Guerra do Golfo, ainda que não mencionando o nome de lugares ou de pessoas nem as datas, Herzog viaja duas vezes, com uma tripulação mínima, ao Kuwait (verão de 1991 e janeiro de 1992), para filmar em 13 breves capítulos: as marcas, as feridas e as cicatrizes que ali permaneceram. Comentários em voz off narram os ruídos da civilização, o silêncio do deserto, as luzes dos poços petrolíferos em chamas e, com poucas e murmuradas palavras, duas mães. Anti-realista, pessimista, apocalíptico, é, como sempre em Herzog, um documentário “fictício” que não se limita apenas ao existente, mas procura revelar a verdade escondida e fazê-la refletir no espectador, deixando-o livre para interpretá-la.

Lektionen in Finsternis caracteriza-se pela utilização de enquadramentos carregados de lirismo poético, magnificamente marcados por uma trilha sonora de grande impacto, incluindo Giuseppe Verdi, Richard Wagner, Gustav Mahler e Sergei Prokofieff. Alguns poço foram propositalmente reacesos a pedido do diretor a fim de gerar imagens ainda mais impactantes. O prefácio do filme com a frase “O colapso do sistema solar vai ocorrer, assim como na criação, em um grandioso esplendor“, atribuída a Pascal é, na verdade, do próprio Herzog.


SINAIS DO ABISMO: FÉ E SUPERSTIÇÃO NA RÚSSIA (1993)
(Glocken Aus der Tiefe – Glaube und Aberglaube in Rußland)

Durante toda sua existência, a União Soviética foi um estado ateu, e o primeiro a ter a eliminação da religião e a substituição pelo ateísmo universal como objetivo ideológico. As instituições religiosas foram confiscadas pelo governo, que também instituiu o ensinamento do ateísmo nos colégios. Realizado dois anos após a queda da União, Glocken aus der Tiefe investiga o misticismo e as superestições na Rússia, assim como a lenda da cidade perdida de Kitezh, localizada no fundo de um lago, pertencente ao folclore russo. Herzog, um ateu, entrevista diversos líderes religiosos e curandeiros, incluindo um homem que se diz a reencarnação do filho de Deus, Sergey Anatolyevitch Torop, que mais tarde passou a se autointitular Vissarion e ganhou certa atenção da mídia e de instituições religiosas.

Como é costumeiro nos trabalhos de Herzog, muito do conteúdo sobre a cidade perdida foi fabricado para o documentário. Os peregrinos que narram a estória de Kitezh, na verdade, eram dois homens comuns, bêbados, pois Herzog não havia encontrado peregrinos de verdade. O cineasta admite essas alterações e defende tais cenas como os pontos chaves de Glocken aus der Tiefe, que mais captam o destino e a alma da Rússia.


TOD FÜR FÜNF STIMMEN (1995)
(Gesualdo – Morte Para Cinco Vozes)

Em sua contínua procura pelo gênio, pelo anômalo e pelo diferente, Herzog dessa vez vai até a Itália para mostrar os lugares que serviram como pano de fundo para as obras musicais (criminosas) compostas por Carlo Gesualdo, o príncipe de Venosa, nobre que se dedicou ao prazer da composição, conhecido por seu temperamento explosivo e violento na vida privada e famoso no âmbito musical por suas ousadias harmônicas “indecentes” para a época: cromatismos melódicos sinuosos, dolorosos e insinuantes. Declamações de puro sentimento, quase expressionistas, que levaram ao extremo o gênero Madrigal e seguiram rítmica, melódica e harmoniosamente o real significado do texto poético.

O diretor elabora uma espécie de jogo com o espectador, uma denúncia pós-moderna sobre a impossibilidade dar voz à historia através de suas manifestações. Mas trata-se de um jogo muito sério porque nos mostra o paradoxo segundo o qual, às vezes, se torna necessário recorrer à ficção para demonstrar uma realidade crível. Para isso o diretor faz uso de uma câmera em perene movimento em sua incansável necessidade de atravessar lugares, de acariciar objetos na utopia de alguma forma fazê-los falar, ainda que penalizando-os mais uma vez com o mais extraordinário e remoto silêncio.


LITTLE DIETER NEEDS TO FLY (1997)
(O Pequeno Dieter Precisa Voar)

Nascido na Alemanha durante a guerra, emigrado com 18 anos nos Estados Unidos, Dieter Dungler alistou-se como piloto e em 1966 e foi abatido no Laos. Depois de 136 dias preso, escapa. Foi o único piloto americano que sobreviveu à captura no Vietnã do Norte. Trinta anos depois é um tranquilo homem de negócios que não perdeu a vontade de voar. Sob a forma de um docudrama para a televisão, Herzog compõe um retrato nítido de um homem que afrontou esperou uma experiência extrema.

Brincando mais uma vez com a realidade e a ficção, o diretor alemão dirige um documentário muito peculiar, fruto de uma elaboração muito pessoal de uma história real. Partindo do pré-suposto que seus filmes nunca são documentários propriamente ditos, Herzog insere materiais inventados para tornar mais visível a realidade. O diretor volta à selva com Dieter, para reviver todos os acontecimentos que quase lhe interromperam a vida, mas que agora não parecem perturbar este pequeno e singular personagem, capaz de recordar sem rancor um passado agora tão distante.


MEIN LIEBSTER FIEND (1999)
(Meu Melhor Inimigo)

Abrindo com cenas do ator Klaus Kinski interpretando Jesus, expressando palavreados, tendo seu microfone tomado e roubando-o de volta, este documentário retrata a amizade – e inimizade – pessoal do ator com o cineasta. Por muitos anos, Kinski foi um dos principais colaboradores de Herzog, atuando em diversos de seus mais importantes filmes, de Aguirre, der Zorn Gottes (Aguirre, a Cólera de Deus), em 1972, sua primeira colaboração com o diretor, a Cobra Verde, a última, quinze anos depois. Detalhes da vida pessoal do controverso ator são narrados através de uma visita de Herzog a um apartamento que ele e sua família já dividiram com Kinski, como as brigas violentas entre ambos, as falsas promessas de nunca mais trabalharem juntos novamente, e as primeiras cenas vistas por Herzog com atuações de Kinski. Também são exibidos trechos do documentário Burden of Dreams, de Les Blank, dirigido ao mesmo tempo que Fitzcarraldo e sobre a produção caótica e problemática do mesmo, e fatos esclarecidos sobre a suposta autobiografia do ator, All I Need Is Love, que enfureceu e prejudicou muitas pessoas, a ponto de sua filha Nastassja Kinski processá-lo após o lançamento do livro.

Através de entrevistas com outras pessoas que trabalharam com o ator, como Claudia Cardinale e Eva Mattes, além de depoimentos do próprio Herzog, Mein Liebster Fiend também mostra um outro lado mais humano e dócil de Klaus Kinski, muito distante de sua imagem de louco desvairado que permaneceu mesmo anos após sua morte, que segundo o próprio Herzog, foi resultado de uma vida muito intensa, “como um cometa”, segundo suas próprias palavras. Um homem amável, apesar de tudo? Não. Pois essa era apenas uma das facetas do multifacetado, insano e complexo ator, o melhor amigo – e também o melhor inimigo – de Werner Herzog.


THE WHITE DIAMOND (2004)
(O Diamante Branco)

Lançar-se em vôo, com o máximo de leveza possível: contra e além de qualquer esforço, para vencer a força da gravidade. Mas a procura dessa leveza é difícil, pois o homem está fortemente ancorado ao solo. E a dificuldade de voar se reflete a dificuldade de sonhar. No entanto, Herzog sabe como lidar com tais obstáculos, e parece saber superá-los com leveza, apesar os obstáculos que a qualquer outro pareceriam intransponíveis. The White Diamond (O Diamante Branco) trata-se do testemunho da aventura empreendida pelo diretor juntamente com Graham Dorrington, um engenheiro espacial inglês, a bordo de um dirigível projetado por este, com o qual exploraram de perto a floresta amazônica da Guiana, voando acima dos mais altos pináculos de uma gigantesca e exuberante catedral verde, em regiões ainda não exploradas.

No filme, os protagonistas são muitas vezes heróis, mas o herói em Herzog é também um outsider e, acima de tudo, um perdedor: representa a luta do homem contra si mesmo e contra o destino. E é obcecado por seu sonho, que obstinadamente tenta torná-lo real, além de qualquer obstáculo. Essa busca pode assumir as conotações de um desejo selvagem de poder, como a que move Aguirre; ou possuir as características de Fitzcarraldo, um visionário trancado no sonho de seu poético mundo, cujo único desejo é levar a cultura para o interior da Amazônia, mas sem violentar a essência daqueles lugares.


THE WILD BLUE YONDER (2005)
(Além do Azul)

The Wild Blue Yonder (Além do Azul) é executado, mais uma vez, na linha da ficção documentada para projetar o espectador na ficção científica, no espaço sideral, em uma aventura narrada por um alienígena interpretado magnificamente por Brad Dourif que, no final, resulta mais humano que nós. Refugiado de seu planeta, chegando à Terra séculos atrás, o alienígena tentou fundar, sem sucesso, uma comunidade junto aos humanos. Paralelamente a essa história vemos uma missão espacial terrestre em direção a outros sistemas solares. Herzog propõe um amarga reflexão sobre o possível futuro de um planeta dominado por uma humanidade incapaz de apreciar as belezas da Terra. A única esperança, talvez, encontra-se nos limites do nosso universo. Desta forma, a metáfora extraterrestre se torna uma espécie de protesto para fotografar a condição humana e declarar que os verdadeiros alienígenas somos nós, que no espaço exploramos novas estradas de esperança para a próxima civilização.

Entre intermináveis e poéticas sequências, esta espécie de híbrido cinematográfico, é o passado, o presente e o futuro das viagens do espaço da humanidade. Não uma exploração, mas o desejo de um novo sonho e uma nova terra que seja melhor que a nossa, cujas forças já chegaram ao fim. Uma pequena e ecológica Odisseia no Espaço para compreender que o cinema pode ser filosofia e comunicação do estado das coisas.


GRIZZLY MAN (2005)
O Homem Urso

Timothy Treadwell era um ativista, naturalista e defensor da natureza. Defendia fervorosamente os ursos, e por treze anos conviveu com eles, até o último dia de sua vida, em que ironicamente ele e sua namorada foram devorados por um urso pardo. Em 2005, dois anos após sua morte, Werner Herzog dirigiu Grizzly Man, um documentário sobre sua vida, sua obsessão por ursos e suas filmagens interagindo com os animais. Através de sua narração, Herzog oferece sua própria interpretação sobre o ativista; para ele, Treadwell era um homem perturbado e que poderia sentir um constante impulso suicida nos últimos dias de sua vida, mas não o condena por isso.

O documentário, embora aclamado pela crítica como um retrato honesto e imparcial, não foi bem visto pelo estudante de ursos Charlie Russell. Este afirmou que o cineasta desconsiderou que, por treze anos, Treadwell nunca foi atacado por um urso sequer, e que embora a única exceção tenha custado sua vida, seu trabalho com os animais é respeitável, especialmente vindo de um homem que cresceu na cidade grande e só passou a ter contato próximo com a natureza depois de adulto. Talvez Russell não tenha levado em consideração de que Grizzly Man é um verdadeiro feito, pois utiliza o material gravado por Treadwell para criar uma reflexão de humanidade importante para todos nós.

Agradecimentos à colaboradora Daniela Trindade.


CAVE OF FORGOTTEN DREAMS (2010)
(A Caverna dos Sonhos Esquecidos)

Herzog sempre teve dúvidas sobre o verdadeiro valor artístico do 3D. Acreditando tratar-se de um mero artifício comercial, o cineasta, que só havia visto um filme em 3D até 2010 (Avatar, de James Cameron) e não gostado, evitou utilizar a técnica em seus filmes por muito tempo. Até o dia em que visitou a caverna Chauvet, localizada no sul da França, considerado um dos locais mais importantes da arqueologia, por conter diversas pinturas pré-históricas, e imediatamente decidiu que seu documentário sobre a caverna deveria ser rodado em 3D. Como a visita não é aberta ao público, Herzog precisou de autorização especial do Ministério da Cultura da França para entrar na caverna, e somente por algumas horas por dia, já que a caverna possui níveis quase tóxicos de dióxido de carbono e rádon.

O interesse à caverna, batizada a partir do nome de Jean-Marie Chauvet, que a descobriu, surgiu quando Herzog leu um artigo da jornalista Judith Thurman (creditada como produtora executiva do filme) sobre arte pré-histórica, especialmente na caverna Chauvet. Dois anos depois, finalmente conseguiu realizar seu documentário, com diversas restrições – não era permitido tocar em nada, as câmeras deveriam ser alimentadas por bateria e o equipamento deveria ser o suficiente para ser levado pelos encarregados da produção enquanto transitavam pela caverna. E com todas essas limitações, Herzog conseguiu apresentar um mundo antigo fantástico e um retrato indispensável da arte de nossos antepassados.

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