[Filme] La Notte

2012 - jun Postado por Pietro Milan e Bruno Colli Nenhum comentário

Segunda parte da trilogia da incomunicabilidade de Michelangelo Antonioni (a primeira é L’avventura), La Notte (A Noite) é estrelado por dois famosos atores europeus dos anos 60; Marcello Mastroianni como o protagonista Giovanni, um escritor de sucesso, e Jeanne Moreau como sua esposa Lidia. Inteiramente rodado em Milão, na Itália, La Notte segue um ritmo mais linear e convencional do que o primeiro filme da trilogia, porém dá mais ênfase às emoções dos personagens e dedicação maior aos diálogos, um dos pontos fortes do filme.

Logo no início de La Notte, quando o casal visita Tommaso (Bernhard Wicki), um amigo à beira da morte no hospital, é possível observar que o casamento de ambos não é tão feliz quanto aparenta. Na primeira oportunidade de trair sua esposa, Giovanni o faz. E na festa de lançamento de seu novo livro, Lidia vai embora discretamente, deixando claro que não se sente bem ali. Tentativas de salvar o casamento acabam destruindo-o ainda mais, principalmente após em uma festa dada pelo milionário Gherardini (Vincenzo Corbella), onde Giovanni conhece Valentina (Monica Vitti), filha de Gherardini, com quem passa a flertar.

Entregar mais detalhes sobre a história de La Notte seria estragar a experiência de assistir o filme, que é carregado de melancolia e emoção durante todas suas duas horas. As atuações de Mastroianni, e principalmente a de Moreau, estão entre as mais marcantes já vistas em um filme. Porém, Monica Vitti acaba um pouco apagada no papel da jovem sedutora Valentina, não conseguindo transmitir a emoção que seus colegas transmitem com maestria. Porém, seu papel não se torna menos importante por causa disso, e os personagens secundários de La Notte, como o próprio Tomasso, são vitais para o enredo.

Nos longos planos onde o interesse se transfere da ação para os corpos e ambientes, o tempo assume uma gravidade que frequentemente oprime o espectador. Uma sensação aparentemente negativa que é na verdade uma das peculiaridades da inovadora linguagem cinematográfica de Michelangelo Antonioni: transmitir através das imagens a psicologia dos personagens, delineando seu lado emotivo que se transfere diretamente da tela para o espectador. Um dos maiores exemplos de incomunicabilidade da trilogia, La Notte consegue fazer mais claramente com que se perceba a mesma jaula invisível que prende seus protagonistas, a parcial incapacidade de compreendê-la e assim ser capaz de fugir dela.

La Notte faz referência ao centro narrativo do filme. Sequências como a da festa em homenagem a um cavalo de corrida nos remetem diretamente a comparações com outros filmes, como La Dolce Vita, de Federico Fellini (produzido no mesmo período) e La Règle du Jeu (A Regra do Jogo), de Jean Renoir. Ambos também retratam ambientes burgueses a beira do colapso. Mas se no filme de Fellini os personagens são imersos no absurdo e no de Renoir os protagonistas são plenamente conscientes de viver a vida como uma farsa, os “heróis” de de Antonioni ficam tão à mercê de suas próprias mentiras que nem mesmo se dão conta delas.

Desde seu lançamento, há cinquenta anos, o filme influencia diversos outros que surgiram posteriormente, de diversos gêneros, como os recentes Blue Valentine (Namorados Para Sempre) e A Separation (A Separação). Antonioni conseguiu retratar um casamento em ruínas de forma sensível, direta e discreta, mas mantendo uma carga emocional muito bem dosada, sem exageros. Como é característica do diretor, La Notte possui um ritmo um tanto lento, mas necessário para acompanharmos a trajetória dos personagens; afinal, de que outra forma o fim de um amor seria retratado?

La Notte tem o êxito de ser um dos filmes mais influentes de toda a história do cinema, em especial seu final, que serviu de base até mesmo para outros trabalhos, como o curta Trois Minutes, de Theo Angelopoulos, e certamente um dos mais interessantes na carreira desse grande diretor, assim como possivelmente o melhor e mais central de toda a trilogia da incomunicabilidade.

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