[Filme] Hugo

2012 - fev Postado por Bruno Colli 3 comentários

AVISO: CONTÉM SPOILERS!

Dirigido por Martin Scorsese, Hugo é uma adaptação do livro The Invention of Hugo Cabret (A Invenção de Hugo Cabret), de Brian Selznick, lançado em 2007. O filme pode ser considerado um grande retorno à forma do diretor, pois Shutter Island (A Ilha do Medo no Brasil), filme anterior de Scorsese, pareceu um tanto decepcionante mesmo para os maiores fãs de seu trabalho.

O garoto que dá o nome ao filme, Hugo (Asa Butterfield), é um jovem órfão parisense que vive numa estação de trem, mais precisamente na torre do relógio da famosa estação Gare du Nord. Hugo vive com um robô, que seu pai (Jude Law) encontrou em um museu havia tentado consertar por muito tempo, antes de falecer. O objetivo do garoto é concluir o que seu pai começou, e para isso ele precisa roubar várias peças para garantir o funcionamento do robô. Em uma das ocasiões, ele é flagrado pelo guarda da estação, o inspetor Gustave (Sacha Baron Cohen), que adquire uma certa implicância pelo jovem. Para piorar sua situação, Papa Georges (Ben Kingsley), dono de uma loja de brinquedos, também flagra seus roubos, e acreditando se tratar de outro furto, fica com o caderno de anotações de Hugo, que pertencia a seu pai e contém anotações sobre o misterioso robô.

Porém, nem tudo está perdido para Hugo: Isabelle (Chloe Moretz), afilhada de Georges, simpatiza com sua situação e decide ajudá-lo a recuperar o caderno, mas Hugo precisa revelar o porquê de tanto mistério para ela. É então que ele a leva até o robô, que precisa de reparos técnicos, mas ainda é capaz de funcionar. Hugo e Isabelle se tornam bons amigos, e é graças a amizade que muitos mistérios serão revelados. Além disso, Monsieur Labesse (Christopher Lee), dono da livraria local, simpatiza com o rapaz e até mesmo doa alguns livros pra ele.

Até aí, a sinopse pareceu a descrição de um filme um tanto Sessão da Tarde, correto? As cenas são bem dirigidas, os personagens são simpáticos e a edição e a fotografia merecem todos os prêmios que conquistaram. Mas o roteiro possui aquela grande sensação de “já vimos tudo isso antes”. É possível que o espectador nem mesmo entenda o porquê do filme ter sido tão aclamado pela crítica e recebido tantas indicações para o Oscar. Teria a Academia desistido de tentar parecer séria? Pois bem, não sabemos quanto a eles, mas o fato é que esses primeiros trinta minutos do filme realmente enganam bastante.

SPOILERS A SEGUIR


Na verdade, Hugo é uma grande homenagem ao cinema clássico, aos primórdios da sétima arte, e principalmente, a um dos maiores pioneiros dessa era, consagrado até hoje por suas películas inovadoras e que abriram as portas para uma geração inteira de cineastas: Georges Méliès. Papa Georges, o severo dono da loja de brinquedos, na verdade é o consagrado diretor, afastado do ramo há décadas, representado como um homem melancólico que sequer gosta de se lembrar do passado – mas não teve coragem de se desfazer de seu robô, portanto deixou-o em um museu. Sua esposa, Mama Jeanne (Helen McCrory), também é uma pessoa real; a atriz Jeanne d’Alcy, que atuou em diversos filmes de seu marido e esteve com ele até o fim de sua vida.

Graças a Hugo e Isabelle, o passado vem à tona em forma de um desenho feito pelo robô; uma ilustração de uma das cenas mais marcantes do filme mais famoso e influente de Méliès, Le Voyage dans la lune, de 1902. É a partir desse ponto que vemos quem é o verdadeiro protagonista do filme: Georges Méliès. Mas isso não quer dizer, de forma alguma, que o personagem homônimo do filme perde a sua importância, pois é ele o responsável por trazer importantes acontecimentos à tona, e como podemos ver desde o início do filme, seu objetivo principal é o de consertar – o que também significa que ele pode consertar certas feridas abertas.

Além de demonstrar dentro do próprio filme diversas obras do diretor, o filme também faz referências claras às obras dos irmãos Lumière, pioneiros do cinema, em especial um dos primeiros filmes dos cineastas, L’Arrivée d’un train en gare de La Ciotat, de 1895, que contém referências visuais em Hugo e também é transmitido dentro do filme. Diversos pontos que parecem pouco importantes nos diálogos dos personagens, ou mesmo em referências visuais, servem de foreshadowing para o que acontecerá em diante.

Em matéria de aspectos técnicos, Hugo também não decepciona. O aspecto moderno do filme, utilizando tecnologia digital, mesclado com seu cenário ambientado na década de 1930, resulta em um interessante semblante neoclássico. Os atores também estão dignos de elogios; os jovens Asa e Chloe (que já figurou por aqui no Moonflux na análise do filme Kick-Ass; nunca mais veremos a Hit-Girl da mesma forma!) atuam na medida certa, sem exageros, tornando seus personagens carismáticos e impossíveis de torcer por. O veterano Ben Kingsley está idêntico ao cineasta que interpreta no filme, e realmente não consigo entender como sua emocionante atuação não foi indicada a nenhum prêmio. Até mesmo os personagens menores, como Mama Jeanne e o “vilão” Gustave são capazes de adquirir simpatia do público; o elenco não poderia ter sido melhor escalado. Outras curiosidades estão entre os cameos do filme, que incluem atores como Michael Pitt, Johnny Depp, e os próprios Scorsese e Selznick em aparições rápidas.

Scorsese e sua equipe estão entre os maiores merecedores da estatueta do Oscar, pois Hugo é um exemplo de homenagem bem executada, que usa elementos comuns e até mesmo clichês de forma discreta e nada apelativa – e uma prova de que filme para a família não precisa ser um filme babaca (embora eu acredite que o filme seja mais voltado para os amantes do cinema e conhecedores de sua história). Também é um exemplo de como uma adaptação deve ser feita, onde até mesmo o autor da obra original sai orgulhoso; o própro Selznick afirmou que Hugo era o filme mais lindo que havia assistido. Méliès se orgulharia de ver sua obra ser homenageada de forma tão singela e tocante. Afinal de contas, é impossível não ir atrás de toda a obra do cineasta após terminar de assistir o filme. Hugo só não ganhará uma nota maior nesta análise devido aos seus insossos trinta minutos iniciais, mas valeu muito a pena esperar pelo restante.

AVALIAÇÃO: