[Filme] Habemus Papam

2012 - jun Postado por Bruno e Pietro 0 comentários

O texto de hoje é de autoria de Marco Antonio, integrante do grupo Moonflux no Facebook.


Há que se reconhecer o esforço de Nanni Moretti na sua luta contra a própria vaidade. Se em La stanza del figlio (O Quarto do Filho), onde o diretor foi consagrado com a Palma de Ouro, Nanni está presente em quase todas as cenas, em Habemus Papam há uma tentativa de controle de si próprio e ele perde a disputa de protagonista com Michel Piccoli. Mas, ainda assim, é desnecessário em diversas cenas. A obra, apresentada em 2011 no Festival de Cannes, aborda a relação entre um cardeal (Piccoli), recém-escolhido papa, e seu terapeuta (Moretti).

É difícil taxar o filme de comédia tal qual fizeram vários críticos. Ele é, sim, um tanto leve (mas denso em alguns momentos, o que pode soar inconstante) e faz rir, porém a ironia e o simbolismo discreto de Moretti, aqui bem mais sutil que em La stanza del figlio, embaçam os gracejos do roteiro frente às reflexões acerca de uma série de polêmicas e questões seculares envolvendo tanto a Igreja Católica (assunto principal da trama) quanto a psicanálise e a velhice.

A parte em que o personagem de Piccoli se diz um ator, fazendo uma analogia entre este trabalho e o de um cardeal/papa consiste numa das críticas mais duras que o diretor faz à Igreja em sua obra, críticas essas que ainda ironizariam com a figura de cardeais humanizados ao extremo (que jogam cartas e vôlei enquanto o mundo agoniza, que tropeçam no escuro e possuem dúvidas como quaisquer outros senhores de idade), com o processo quase fútil de escolha do novo papa (como numa disputa esportiva, com direito a apostas) e com a figura do próprio papa eleito, um senhor que, antes de representante de Deus, é um idoso frustrado, que se sente preso a uma obrigação sem sentido. Isso sem falar no fato de que um membro da guarda suíça se faz passar por papa por três dias ao se esconder dentro de um quarto. De fato, o papa é um ator e qualquer um por detrás das cortinas pode ser ele.

A psicanálise também não escapa da acidez de Nanni. Vemos isso logo quando o personagem interpretado por ele é chamado ao Vaticano e, impedido de perguntar ao recém-eleito papa sobre sexo, sua mãe e seus sonhos, se vê quase sem chão (como se a psicanálise fosse resumida a esses três aspectos). O fato de que a mulher dele é “viciada” na abordagem do “déficit de dedicação” pode ser visto tanto como um vício dos psicanalistas em querer sempre dar a mesma solução a problemas diferentes quanto um “déficit de dedicação” da parte do próprio personagem de Moretti com relação, talvez, à família.
A direção deu um salto de qualidade, contemplando planos gerais de forma sensível e brilhante. Grande trabalho, também, da direção de arte, além de boas atuações. Sem dúvida um filme subestimado.

AVALIAÇÃO:

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