[Filme] Cherry Blossoms

2012 - jun Postado por Pietro Milan 2 comentários

A temática da terceira idade, a relação dos idosos com diferentes gerações da própria família e a espera da morte é um tema relativamente recorrente no cinema. Um tema difícil e perigoso que em mãos e doses erradas tente a cair no excesso da dramatização e em clichês capazes de arruinar qualquer filme sem piedade. Em 1936, o cineasta norte americano Leo McCarey dirigiu Make Way For Tomorrow (A Cruz dos Anos), um filme muito sensível sobre um casal de idosos que se vê obrigado a se separar e encarar de frente o conflito de gerações entre pais e filhos. O filme agradou muito ao diretor japonês Yasujiro Ozu, que com sua notória maestria, inspirado no filme do diretor americano, produziu uma obra prima, um dos melhores filmes do cinema japonês e da história do cinema, Tôkyô monogatari (Era uma vez em Tóquio), no ano de 1953. Em 2008 o tema voltou as telas sob o olhar da veterana diretora alemã Doris Dörrie, com uma dolorosa e profunda releitura moderna da obra, Kirschblüten – Hanami (Cerejeiras em Flor, em português, ou Cherry Blossoms). O filme de Dörrie não se passa nos Estados Unidos e nem mesmo em um Japão que está se recuperando depois da súbita derrota na Segunda Guerra, mas sim em uma Europa contemporânea com seu ritmo de vida completamente mudado, mas talvez não tão diferente no que diz respeito às emoções e na forma com que estas eram demonstradas na obra prima de Ozu tantos anos antes.

Aqui, um casal de idosos, Trudi (Hannelore Elsner) e Rudi (Elmar Wepper) vive com uma relativa tranquilidade os últimos anos de trabalho antes da aposentadoria em um pequena cidade no interior da Baviera. A rotina parece ter dominado suas vidas e nada de especial acontece. Porém, de repente, Trudi é informada pelos médicos que o marido tem pouco tempo de vida devido a um tumor. Os médicos a aconselham não contar-lhe a verdade e talvez fazer uma última viagem, enquanto Rudi ainda tem forças. Mas Rudi que sempre foi relutante a viajar e inicialmente aceita somente visitar os filhos que vivem em Berlin. Porém, a prole “não tem tempo” para dar atenção aos pais e os netos não vêem a hora que os avós partam para poder voltar para seus quartos ocupados por eles enquanto a filha mais nova não suporta a idéia que, segundo ela, o outro irmão que vive no Japão tenha sempre sido o filho preferido. E neste ponto, a diretora coloca a questão cuja resposta não se obtem: teriam os filhos agido de forma diferente se soubessem da doença incurável do pai? O casal decide então buscar um pouco de tranquilidade nos mares do norte, onde de forma inesperada Trudi morre durante o sono. Desolado e completamente sozinho, Rudi decide ir para o Japão, encontrar o terceiro filho.

É neste ponto que a diretora Doris Dörrie demonstra saber afrontar com grande delicadeza a emoção dos personagens. A dor não expressa se transforma em comportamentos anormais e olhares temerosos. Rudi dorme com as roupas da mulher ao seu lado e as veste na tentativa de senti-la mais próxima. As noites insones e um velho livro de Katsushika Hokusai são os porta vozes de um grande sofrimento. Talvez somente as flores de cerejeira  de Tóquio e a amizade com a jovem Yu (Aya Irizuki), uma jovem sem teto que passa as tardes praticando o Butoh (dança contemporânea japonesa criada no pós guerra por Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno para expressar de forma malnacólica a desesperança dos homens perante a vida), para também suportar a perda da mãe, possam fazer com que Rudi reencontre algum sentido na vida, sinta vontade viajar por todos os lugares que Trudi sempre sonhou em vida e realmente se aproxime dela de uma forma menos dolorosa.

Desta forma, o filme se divide em duas partes bem distintas: a primeira se move por ambientações germânicas, entre o pacato interior da Bavária, onde vive o casal, e a tentacular capital da República da Alemanha. A segunda parte, em Tókio e no interior do Japão, onde Dörrie realiza uma mudança de marcha arriscada, mas felizmente bem sucedida na história, rendendo uma justa homenagem a Tôkyô monogatari, de Yasujiro Ozu. O conjunto da obra resulta em um filme longo e lento em algumas partes, mas necessário para poder descrever o difícil percurso emotivo do protagonista. A fotografia também faz sua parte e não faltam imagens de cartão postal: montanhas com neve da Baviera, o próprio Monte Fuji, um dos símbolos do Japão, as verdes pradarias de montanha e claro, flores de cerejeira. A trilha sonhora também acompanha delicadamente a evolução da trama, com leves toques de piano que se alternam periodicamente com os alegres gorjeios dos pássaros.

Kirschblüten – Hanami poderia facilmente cair no discurso sobre os clichês e possíveis dejavus do gênero, fato que a diretora obviamente tinha consciência ao lidar com o tema, e soube fazê-lo de forma sagaz, demonstrando ser capaz de de administrar com equilíbrio artístico as confusões emocionais e as opções que poderiam resultar em uma obra patética e sentimentalista. Dörie nos mostra seu olhar delicado para pintar a figura de um idoso em crise existencial sem tentar provocar um efeito emotivo artificial nos espectadores de lágrima fácil, e através de uma mistura bem sucedida entre a explicita autoironia do cinema germânico e a serena admiração pela cultura japonesa, com seu teatro, dança, pintura e paisagens, o filme  resulta em uma viagem de autoconsciência de maneira honesta e não maniqueista.

AVALIAÇÃO: