[Filme] Amour

2012 - dez Postado por Pietro Milan e Bruno Colli 1 comentário

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2012, Amour é o mais recente longa metragem de Michael Haneke, que já havia ganhado seu primeiro prêmio no festival três anos antes, com Das weiße Band (A Fita Branca). Estrelando os atores veteranos Emmanuelle Riva (famosa por diversos personagens, entre eles a protagonista no clássico Hiroshima Mon Amour, de Alain Resnais) e Jean-Louis Trintignant (que trabalhou com alguns dos maiores nomes da Nouvelle Vague), Amour apresenta uma temática muito comum nas artes, mas que ainda não havia sido explorada pelo diretor: a de um casal idoso e o sofrimento de ambos no fim de suas vidas. Mas será que essa premiação foi mesmo tão merecida?

Amour se inicia de forma brusca e repentina, com uma idosa sendo encontrada morta por bombeiros dentro de um apartamento trancado. Após os créditos iniciais, somos apresentados aos protagonistas, Anne (Riva) e Georges (Trintigant), ex-professores de música, assistindo a um espetáculo no teatro. A câmera é focalizada no público, fixamente e por mais de dois minutos, demonstrando as intenções do cineasta de forma bem clara: a plateia está olhando para todos nós, espectadores da vida real, sabendo que inevitavelmente seremos nós os protagonistas dessa história. O exagero desse sentimentalismo, que apela para a comoção e identificação do espectador como um fantoche, faz com que a obra perca um tanto de seu potencial logo em seus primeiros minutos. Afinal, um cineasta deve provocar reações em seu público causando um bom drama de efeito dentro de sua própria obra, e não apelar para os sentimentos mais profundos do mesmo por mero sadismo.

Mas a história prossegue. Durante um café da manhã, Anne simplesmente para de responder por diversos minutos, deixando Georges bastante preocupado, até que repentinamente ela volta ao normal. Esse é um sintoma do que Anne está sofrendo, artéria carótida entupida, o que faz com que ela precise de uma cirurgia para se recuperar. A cirurgia causa danos colaterais, fazendo com que ela fique confinada a uma cadeira de rodas. Sua filha, Eva (Isabelle Huppert), faz constantes visitas nesse período, mas não consegue ajudar a mãe como deseja.

Dessa vez Haneke jogou baixo e acertou o alvo. Seus protagonistas são um casal de idosos, cuja esposa começa a apresentar sintomas de uma progressiva debilidade física e mental sem cura, enquanto o marido permance ao seu lado com a típica tenacidade desumana de seus personagens.  Nada de muito relevante acontece. A partir desse ponto, o filme se torna uma crônica lenta e inexorável sobre o agravamento das condições da protagonista. A empregada, a enfermeira de Anne, os despertadores, o sofrimento, os gritos e por final a incompreensão, são o pano de fundo da estória o tempo todo, intercalados pelas ocasionais visitas da filha (Huppert), a qual o pai não consente de tomar um papel ativo na assistência da mãe, papel que considera dever exclusivamente seu.

Tal como em Funny Games (Violência Gratuita) e em tantas outras de suas obras, o intuito principal de Haneke é provocar o espectador. Em Funny Games, o austríaco atacou seu público (por duas vezes, considerando que o filme ganhou um remake ainda mais desproposital com atores americanos) por gostar do cinema repleto de ultraviolência e de terror gore. Mas a questão principal que o filme causou foi: para quê? Seria muita ingenuidade, talvez até mesmo insanidade, de um cineasta acreditar que o público de um filme é realmente violento e psicótico por gostar de um determinado gênero. A provocação perde totalmente o sentido nesse caso.

Em Amour, ele busca outras vias de provocação: a de como ver o espectador através das próprias memórias em sua mente. E com muito sadismo em relação aos personagens, que indiretamente se torna um sadismo contra os próprios espectadores (que se identificam com os personagens ou já vivenciaram a dor de uma situação semelhante) e extremo cuidado com as imagens e representações (o quarto pra o qual o protagonista se muda pra deixar a cama para a esposa, símbolo do sacrifício, a lentidão e a dificuldade com que Trintignan se move custando mais agonia que os gritos da esposa), e como convém, algumas cenas clássicas pra fazer com que as lágrimas escorram pelo rosto do espectador. Causar uma sensação dolorida à todos aqueles que já conviveram com um idoso à beira da morte e testemunharam seu fim numa cama ou num hospital, através de cenas chocantes e crueis estrelando Anne. Riva, cuja atuação é esplêndida, é um dos maiores atrativos do filme e merecia ganhar todos os prêmios possíveis por tudo que precisou fazer para interpretar sua personagem.

A abertura com a plateia que assiste os espectadores, futuros protagonistas deste filme na vida real, e a intimidade trocada pelo casal no ônibus logo é substituída pelo interior de um elegante apartamento parisiense do qual ambos não sairão mais. Mas este filme sobre a doença mostra-se doente. O elegante apartamento se mostra como o próprio cinema do diretor austríaco, que abre uma porta depois tranca-se dentro sem oferecer via de fuga. Haneke já havia conseguido apagar o brilho de Isabelle Huppert em outras ocasiões, como no lastimável Le temps du loup (Tempos de Lobo). O diretor parece ter partido para um ato de aniquilação do cinema francês envolvendo todas as gerações de atores, da própria Huppert a Juliette Binoche, agora passando por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Ela, de Hiroshima Mon Amour e seus rios de memórias, relegados a recordações de um álbum fotográfico folheado como em uma vida após a morte. Toda uma carreira enriquecida com atuações magníficas em filmes de Jean-Pierre Melville, Georges Franju, Marco Bellocchio e Krzysztof Kieslowski assassinada com em único golpe. Esperamos que os grandes atores franceses não entrem neste apartamento.

O filme foi defendido como uma demonstração suprema do que é o amor verdadeiro. Mas a abordagem datada e previsível que Amour oferece pode até demonstrar o afeto entre o casal de idosos, mas não explora. A narrativa está mais preocupada em demonstrar o sofrimento, e extinguí-lo de forma drástica, do que relatar o que realmente é o amor. A atitude de apreciar o filme não é nada condenável, pois o mesmo é milimetricamente construído para fazer com que o espectador se identifique, e consequentemente sofra, causando um masoquismo inconsciente e desnecessário, algo que um bom drama deve fazer sem apelações. E esse sofrimento agrada a maioria dos jurados de festivais – em especial o Cannes desse ano, cujo júri foi presidido pelo infame Nanni Moretti – e faz com que Amour seja considerado uma obra bela e tocante. Ironicamente, é justamente nessa emoção artificializada, onde Haneke abandonou até mesmo seus conceitos autorais para concentrar-se em cutucar as feridas do espectador, que Amour perde qualquer mérito que poderia possuir genuinamente.

Não é novidade que Haneke se apoie com tanta malícia na estética do sofrimento. Porém, se nos outros filmes ainda havia o pretexto de mascarar uma certa hipocrisia, Amour não apresenta nada de novo. Nenhuma reflexão insólita ou chocante sobre um tema que o cinema frequentemente explora de forma direta ou indireta. Apenas um exercício de tortura como em seus filmes precedentes, não direta como em Funny Games, mais sutil, portanto, em alguns aspectos, mais perturbador. Apesar da pretensão, os trabalhos anteriores do cineasta ainda apresentavam elementos autorais, enquanto Amour é somente mais um filme realizado apenas para ganhar festivais e comover (ou torturar) pessoas através de sentimentalismo gratuito – que, aliás, poderia ser um ótimo título brasileiro para o filme.

AVALIAÇÃO: