[Especial] Nová Vlna, Nouvelle Vague Tchecoslovaca

2014 - mar Postado por Bruno Colli Nenhum comentário

Movimentos cinematográficos sempre foram de importância vital para o desenvolvimento do cinema autoral e para consolidá-lo como arte. Do expressionismo alemão ao neorrealismo italiano, passando pelo kammerspielfilm e pela tradicional nouvelle vague francesa, cineastas sempre buscaram por novas formas de fazer cinema, inovando cada vez mais dentro de suas áreas, aperfeiçoando meros exercícios de estilo e tornando-os filmes completos, originais, longe de padrões convencionais, sempre inseridos dentro de um contexto próprio, mas jamais datados. O leste europeu, área tão desolada e ainda não descoberta por boa parte do ocidente, foi responsável por obras valiosas e respeitáveis do cinema desde seus primórdios. Países como Polônia, Hungria, Iugoslávia e todos os terrenos que formavam ou eram dominados pela União Soviética (Rússia, Ucrânia, Letônia, Lituânia, Estônia etc), tais como os países do Cáucaso, nunca deveram nada aos vizinhos ocidentais quando se trata de experiência cinematográfica. No entanto, esses países sofreram por anos nas mãos de governos opressores, ditatoriais, onde a liberdade de expressão era quase inexistente, e os opositores das autoridades eram imediatamente punidos com tortura, prisão, exílio permanente ou morte. Como uma afronta e um ato de repúdio, músicos, diretores, poetas, escritores e artistas em geral começaram a unir-se para expressar suas ideias através da arte. Dessa forma, cada um desses países obteve suas formas de se expressar e lutarem contra a opressão. A Tchecoslováquia foi um destes.

Vera Chytilová

No início dos anos 1920, diversos artistas avantgarde associaram-se para fundar um movimento chamado Devetsil, nome dado à planta carrapicho em tcheco, cuja tradução literal é “nove vidas”. Inicialmente iinfluenciados pelo Proletkult, movimento literário russo organizado pelo proletariado e que reuniu de artistas decadentes a futuristas, o Devetsil focava-se no realismo mágico – tanto na pintura quanto na literatura – e, posteriormente, passou a abordar os elementos ideológicos do movimento poetista. Embora tivesse convicções comunistas, o movimento era crítico ao Stalinismo e, embora tenha iniciado sem nenhuma convicção ideológica, não demorou muito para que os integrantes do movimento começassem a elaborar teorias por trás de suas atividades, espalhando-as através de manifestos pelas ruas. O estilo conhecido como “poema-retrato” tornou-se uma das características do grupo, que mesclavam as novidades na ciência, na arquitetura e na indústria em suas obras. Embora tenha durado pouco tempo – somente dez anos, de 1920 a 1930 -, este movimento foi vital para a influência do que se tornaria um forte movimento cinematográfico na Tchecoslováquia algumas décadas depois.

Arte de Jindrich Styrský, um dos principais integrantes do Devetsil

O ano de 1948 causou mudanças drásticas no sistema político tchecoslovaco. Após um golpe de estado, o país foi tomado pelo regime (supostamente) comunista, que se tornou o sistema vigente por mais de quarenta anos. No início da década de 1960, alunos e ex-alunos da FAMU – Escola de Cinema e TV da Academia de Artes Performáticas de Praga – decidiram que não se permitiriam ser calados por um governo que tentava silenciar suas vozes. Influenciados pela organização do Devetsil e encorajados pelo surgimento da Escola Polonesa, movimento informal que durou de 1955 a 1963 e que já havia seus representantes mais notáveis na forma de Andrzej Wajda, Wojciech Has, Andrzej Munk e Jerzy Kawalerowicz, os alunos, agora já formados como cineastas, passaram a estudar formas únicas de expressão através da sétima arte. Reuniam-se frequentemente para estudar novos métodos de fazer cinema, planejar roteiros repletos de metáforas (algumas sutis, outras nem tanto), convocar novos atores, profissionais ou não, para representarem seus personagens, que podiam ser meros recursos narrativos ou interpretações alegóricas. Desta forma, formou-se a Nová Vlna, a nouvelle vague tchecoslovaca.

O Martelo das Bruxas (Kladivo na carodejnice), de Otakar Vávre, 1970; o diretor já havia uma carreira consolidada antes do surgimento da Nová Vlna, mas passou a ser associado ao movimento graças às temáticas similares e alta qualidade de suas obras

Seja trabalhando em estúdios grandes, como o Barrandov, o maior do país e um dos maiores da Europa, ou de forma independente, os cineastas não pouparam esforços para realizar seus filmes. Muitos deles tomaram as funções de direção, roteiro, montagem e produção ao mesmo tempo. No decorrer dos anos, surgiram diversos cineastas, todos eles enriquecendo o movimento às suas próprias maneiras de fazer cinema, mas nunca deixando a sensibilidade artística de lado, tampouco a preocupação com o estado sociopolítico da Tchecoslováquia. Entre os diretores que trabalhavam no estúdio Barrandov estão Milos Forman, Jirí Menzel, Pavel Jurácek, Jan Nemec e Vera Chytilová. Todos estes acabaram por tornar-se nomes respeitáveis tanto dentro do movimento que fizeram parte quanto no cinema como um todo. Além destes, outros cineastas tchecos, como Evald Schorm, Ivan Passer, Juraj Herz, Jaromil Jires e Jaroslav Papousek, e também eslovacos, como Dusan Hanak, Stefan Uher, Juraj Jakubisko, Ján Kadár, Peter Solan e Elo Havetta, também deixaram suas marcas registradas na Nová Vlna ao realizar algumas das mais notáveis obras produzidas durante o movimento. Cineastas veteranos, de carreiras consolidadas, eventualmente interessaram-se e tornaram suas obras como parte integrante da Nová Vlna; é o caso de Karel Kachyna, Vojtech Jásny e Otakar Vávra. Embora não tenha feito parte oficialmente, mas por ter realizado, contemporaneamente ao movimento, obras fundamentais para o cinema tchecoslovaco, os trabalhos de Frantisék Vlácil são incluídos frequentemente como parte da Nová Vlna.

Pearls of the Deep (Perlicky na dne), de 1965; parceria antológica entre os cineastas Vera Chytilová, Jaromil Jires, Jirí Menzel, Jan Nemec e Evald Schorm

A Nová Vlna pode ser dividida entre os filmes tchecos, normalmente de conotações satíricas, surrealistas e absurdas, e os filmes eslovacos, que exploram o psicológico e o trágico. Logicamente, esta não era uma regra; alguns cineastas eslovacos exploraram a comédia abstrata da mesma forma que tchecos não hesitaram em explorar o lado negro da mente, o vazio e o desapego pela vida. O humor encontrado nos filmes da Nová Vlna não era o conhecido “pastelão”, clichê americano já defasado na época. A comédia do movimento é encontrada na própria ironia do cotidiano, no qual a graça provém do quão miserável é a vida como um todo sem nem nos darmos conta. Num contexto político, estamos rindo da nossa própria desgraça enquanto ridicularizamos o opressor. Seja na comédia ou na tragédia, os filmes da nouvelle vague tchecoslovaca oferecem diversas oportunidades de reflexão ao espectador; sobre o nosso dia-a-dia, sobre o universo, sobre a sociedade em que vivemos, sobre o prazer da vida e a razão da morte. Obras atemporais, de extremo valor artístico, que cinquenta anos após suas realizações, ainda nos parecem tão a frente de sua época.

Juraj Jakubisko

Curiosamente, nunca houve um ponto de partida oficial para a Nová Vlna. O lançamento de O Sol em uma Rede (Slnko v sieti), segundo longa metragem de Stefan Uher, por muitas vezes é apontado como um dos pontos-chave do início do movimento, pois diferencia-se completamente das produções propagandistas da época ao narrar uma história entre pessoas mundanas, um triângulo amoroso que serve como recurso narrativo para estabelecer um paralelo entre a vida nos grandes centros e a vida no interior do país. Ao abordar temas como distância, desafeto, suicídio e pobreza, o filme rompeu completamente com as imposições do método socialista, fato que não foi bem aceito pelas autoridades. Pedro, o Negro (Cerný Petr), de Milos Forman, também apresenta jovens mal orientados como protagonistas, mas opta por uma abordagem mais satírica, resultando numa comédia intelectualizada que confronta o opressor. Este filme foi indicado como uma das grandes obras desconhecidas de diretores consagrados; a matéria pode ser lida clicando aqui.

O Sol em uma Rede, de 1962, realizado por Stefan Uher; um dos pioneiros do movimento

Vera Chytilová, que nos deixou em março de 2014, acabou por tornar-se conhecida como a primeira dama do cinema tchecoslovaco, e não por acaso. Influenciada pelo movimento feminista da época – embora nunca tenha se identificado como uma cineasta feminista de fato -, Vera realizou seus primeiros trabalhos no cinema, como A Bagful of Pleas (Pytel blech), e seu primeiro longa metragem, Algo Diferente (O necem jinem), promovendo o empoderamento feminino numa época em que a mulher ainda era vista como objeto ou símbolo de submissão. O primeiro narra a história de uma garota que rebela-se contra sua instituição de ensino e ganha a admiração de outras mulheres, atitude reprimida pelas autoridades, estabelecendo assim sua primeira obra sociopolítica e estabelecendo dois pontos importantes: o patriarcado sempre se incomodará com a libertação feminina e as autoridades jamais aceitarão a revolta do proletariado. Trilhando caminhos experimentais, Algo Diferente nos apresenta duas mulheres, de vidas totalmente distintas, como faces opostas da mesma moeda, procurando por “algo diferente” em suas vidas. A montagem do filme estabelece o contraste ideal para as duas protagonistas e as vidas que levam, enquanto a fotografia utiliza ângulos únicos, nada convencionais, para reforçar o ponto apresentado por Vera, que mais uma vez reforça a autonomia das mulheres.

Fruto do Paraíso (Ovoce stromu rajských jíme), de 1969; releitura satírica da lenda de Adão e Eva, o filme fez com que Chytilová tivesse problemas com as autoridades

Surrealismo e comédia sempre foram grandes artifícios cinematográficos para o movimento. Através deste, suas histórias podiam ser narradas metaforicamente, no qual o suposto nonsense possui muito mais sentido do que aparenta – a forma ideal de driblar e atacar o governo utilizando a verba do mesmo. Pássaros, Órfãos e Tolos (Vtáckovia, siroty a blázni), de Juraj Jakubisko, é um bom exemplo: jump cuts repentinos, situações aparentemente desconexas e aleatoriedades podem parecer somente uma comédia experimental aos espectadores desatentos, mas ao analisar o significado do filme, percebemos a grande afronta contra o governo tchecoslovaco presente nele – um exemplo de suposta liberdade onde ninguém é livre de fato, culminando em seu final desolador, belo e trágico, provando o ponto de Jakubisko, que eventualmente, assim como vários de seus colegas, teve problemas com as autoridades após a realização do filme. Dois exemplos cruciais do surrealismo tcheco, As Pequenas Margaridas (Sedmikrásky), de Chytilová, e Valerie e Sua Semana de Deslumbramentos (Valerie a tyden divu), de Jaromil Jires, escondiam poderosas mensagens metafóricas contra o sistema como um todo. Ambos os filmes foram separadamente analisados nesta página e os links podem ser encontrados no fim da matéria.

Pássaros, Órfãos e Tolos, de 1969; realizado pouco após a invasão soviética em Praga, o filme foi banido por mais de vinte anos pelo governo tchecoslovaco, que dificultou a carreira de Jakubisko por quase uma década

O êxito do assim chamado “milagre do cinema tchecoslovaco” não se restringiu somente ao seu país de origem. É o caso de Viagem ao Fim do Universo (Ikarie XB-1), de 1963, que apresenta uma série de conceitos inovadores que posteriormente foram explorados à extensão em obras sci-fi, como a solidão do homem no espaço, estrelas negras radioativas e o perigo das armas nucleares, ganhou admiradores como George Lucas e Stanley Kubrick, que nunca esconderam admiração pelo filme, chegando ao ponto de afirmar que Star Wars e 2001 jamais existiriam se não fosse por Viagem. Baseado em A Nuvem de Magalhães (Oblok Magellana), do escritor polonês Stanislaw Lem (também autor de Solaris), com efeitos especiais surpreendentes para sua época e que, raro para um filme do gênero, envelheceu sem parecer datado nos dias atuais, Viagem ao Fim do Universo é um dos primeiros filmes realizados pelo cineasta tcheco Jindrich Polák e conta com a presença de Pavel Jurácek no roteiro. Além de Viagem, outras demonstrações da versatilidade dos gêneros cinematográficos dentro do movimento incluem Lemonade Joe (Limonádový Joe aneb Konská opera), dirigido por Oldrich Lipský em 1964, divertido e interessante amálgama entre o western com musicais, e O Fim do Agente W4C (Konec agenta W4C prostrednictvím psa pana Foustky), de Václav Vorlícek, paródia dos filmes de James Bond e outros filmes de espionagem da época.

O revolucionário Viagem ao Fim do Universo, de 1963

Tal sucesso não restringiu-se somente ao apreço de cineastas renomados, como também em festivais de cinema pelo mundo afora. Duas produções chegaram a ganhar o reconhecimento do Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, fato raro, considerando o constante desprezo da Academia em relação às obras experimentais, especialmente quando estrangeiras. É o caso de Trens Estreitamente Vigiados (Ostre sledované vlaky), de Jirí Menzel, ambientado durante o período próximo ao fim da Segunda Guerra Mundial e que examina a condição humana e o despertar da sexualidade através de uma história aparentemente simples; e o de A Pequena Loja na Rua Principal (Obchod na korze), de Jan Kadár e Elmar Klos, que retrata a arianização durante a Segunda Guerra Mundial através do ponto de vista de um pai de família tchecoslovaco. Este último, assim como Diamantes da Noite (Démanty noci), de Jan Nemec, receberam indicações em nossa lista de filmes sobre o holocausto; clique aqui para acessá-la.

Trens Estreitamente Vigiados, de 1966; comédia de fortes conotações sexuais
que tornou Jirí Menzel reconhecido

É fato que movimentos como o neorrealismo italiano, cinéma verité, expressionismo e a nouvelle vague francesa tornaram-se de grande renome e influenciam, até os tempos atuais, o cinema como arte e suas inovações estão presentes até em filmes convencionais e comerciais, cujos realizadores não costumam perceber o quanto seu cinema, ainda que sem ideologia alguma, jamais seria o mesmo sem os movimentos ideológicos de outrora. Mas ainda que não tão (re)conhecida quanto outras nouvelle vagues, quando falamos sobre a importância e contribuição para a sétima arte, a Nová Vlna deve ser categorizada ao lado – e talvez até acima – dos movimentos mais famosos. Tal como a Escola Polonesa, a Nová Vlna influenciou diretamente o surgimento da Crni Talas, a Onda Negra Iugoslava, que durou entre metade dos anos 1960 até o início dos anos 1970, cujas características mais marcantes, como o humor negro, a crítica sociopolítica e a narrativa pouco convencional, ainda que os iugoslavos tenham tomado rumos ainda mais brutais em suas formas de expressão, remetem diretamente ao movimento tchecoslovaco.

O Cremador (Spalovac mrtvol), de Juraj Herz, 1968; a  perturbadora história de um homem que decide assassinar todos que possuem sangue judeu para ser aceito pelo partido nazista

Embora hoje em dia sejam aclamadas pela crítica e por admiradores de cinema por todo o mundo, as obras da Nová Vlna não foram bem recebidas pelo seu governo e seus realizadores sofreram duras consequências graças a elas. Muitas delas foram banidas poucos dias após sua primeira exibição nos cinemas, e só puderam ser lançadas após a Revolução de Veludo, que deu fim aos anos da cortina de ferro no país. Durante a sangrenta primavera de Praga, cineastas tiveram seus filmes confiscados e suas carreiras encerradas para sempre; muitos buscaram refúgio em outros países, enquanto outros foram deportados e impedidos de trabalharem como diretores em seu próprio país. Contando somente com a solidariedade dos organizadores de festivais renomados de cinema, como Veneza, Cannes e Berlim, os integrantes do movimento não tinham outra escolha a não ser enviar seus filmes em segredo para que pudessem ser exibidos nestes festivais. Muitos não tiveram esta chance – ou foram descobertos e impedidos – e acabaram por perder suas obras para sempre.

Pavel Jurácek; uma carreira brilhante destruída precocemente

No decorrer dos anos, especialmente após a primavera de praga, os responsáveis pelo movimento pagaram o preço por terem provocado e afrontado aqueles com o poder político. Pavel Jurácek foi um destes; um dos pioneiros do cinema interativo ao escrever o roteiro do primeiro filme do gênero – no qual o público selecionava as respostas de acordo com o que desejavam que acontecesse a seguir -, Kinoautomat, o cineasta e roteirista teve sua carreira cinematográfica destruída alguns anos mais tarde por dirigir Case for a Rookie Hangman (Pripad pro zacínajícího kata), filme surrealista que satiriza a sociedade tchecoslovaca que acabou por ser sumariamente banido. Após realizar Fruto do Paraíso (Ovoce stromu rajských jíme), releitura surreal e erótica da história de Adão e Eva, Vera Chytilová foi impedida de dirigir filmes na Tchecoslováquia e só pôde voltar à ativa em 1976, quando escreveu uma carta ao presidente Gustáv Husák detalhando sua carreira e sua simpatia pelo socialismo; isto, além do fato graças de cineastas internacionais terem pressionado e protestado, permitiu que ela pudesse voltar a trabalhar. Porém, seus filmes posteriores continuaram a gerar controvérsia e censura até o fim do regime comunista, em 1989. Seus colegas também sofreram censura e confiscação de seus trabalhos: A Piada (Zert), de Jaromil Jires, baseado na obra homônima de Milan Kundera e co-escrito pelo mesmo, foi banido pelo governo duas semanas após seu lançamento e só foi liberado décadas mais tarde, após a Revolução de Veludo; o mesmo correu com Andorinhas Por um Fio (Skrivánci na niti), de Jirí Menzel, realizado em 1969, cujo lançamento só foi permitido em 1990.

A Piada, de 1968; sucesso nos cinemas no curto período em que foi exibido, o filme funcionou como denúncia ao totalitarismo do governo, mas foi banido até o fim dos anos 80 e quase causou a prisão de Jires e Kundera

Não é possível definir com certeza uma data para o término da Nová Vlna; quando os cineastas Milos Forman e Jan Nemec deixaram o país sob ameaças de prisão e proibição de realizarem suas obras, o movimento perdeu forças. Após dirigir O Baile dos Bombeiros (Horí, má panenko), sátira ao comunismo do Leste Europeu, Forman foi exilado da Tchecoslováquia e passou a trabalhar nos Estados Unidos, onde eventualmente tornou-se um diretor Hollywoodiano, enquanto Nemec teve sérios problemas legais após a realização de A Festa e os Convidados (O slavnosti a hostech), no qual há uma clara semelhança entre Lenin e o personagem sádico, perverso e opressor interpretado por Ivan Vyskocil. Seu filme mais corajoso, Oratório Para Praga (Oratorio for Prague) foi realizado às escondidas e documenta as atrocidades cometidas durante a primavera de Praga em 1968, tornando-se, assim, o único registro filmado da invasão soviética; durante a produção, Nemec e sua equipe correram risco de morte. Ameaçado de prisão, Nemec mudou-se para a Alemanha, posteriormente para os EUA, e só voltou a dirigir filmes em 1989, após um bom tempo trabalhando na gravação e documentação de casamentos, como o da realeza sueca.


O Baile dos Bombeiros, de 1967; premiado no exterior, a realização do filme custou a carreira de Milos Forman em seu país natal

Os cineastas que continuaram na Tchecoslováquia sofreram grave repressão e censura, tendo seus nomes incluídos em “listas negras”, oficializadas pelo governo ou de forma informal, mas ainda válida. Temendo o pior após acontecimentos envolvendo seus próprios colegas, os cineastas responsáveis pela Nová Vlna passaram a dirigir obras de cunho menos desafiador ou sociopolítico (ou fazendo-o de forma extremamente discreta, quase imperceptível) ou afastaram-se completamente das câmeras. E assim, o movimento foi dissolvendo-se aos poucos, mas deixando sua contribuição magnífica para o cinema e uma marca inesquecível no cinema como um todo. Fica o nosso agradecimento a estes inovadores, que transformaram a sétima arte numa experiência ainda mais impressionante e moldaram o cinema autoral de qualidade como o conhecemos na atualidade. E que seus filmes passem a ser cada vez mais descobertos e redescobertos no decorrer dos anos.

Foto histórica: diversos diretores da Nová Vlna reunidos, entre eles Vera Chytilová, Milos Forman, Evald Schorm e Jiri Menzel. Clique para ampliar

Filmes da Nová Vlna analisados e indicados no Moonflux:

* Parte integrante do especial Obscuridades de cineastas consagrados
** Parte integrante do especial Filmes Sobre Holocausto