[Diretor] Sharunas Bartas

2014 - fev Postado por Pietro Milan 1 comentário

Contemplativo e intimista, o cinema sensorial de Sharunas Bartas reflete a própria evolução da história do cinema lituano. Genericamente, a produção cinematográfica da Lituânia divide-se em duas fases: o cinema pré-1990 e o cinema pós-1990, ano em que o país proclamou sua independência da União Soviética. Tudo começa a partir da Segunda Guerra, período no qual a Lituânia sofreu uma repressiva dominação por parte da União Soviética, dominação não apenas territorial, mas cultural, reduzindo o pequeno país báltico a um eficaz meio de propaganda governamental. Nesse sentido, o cinema teve um papel significativo: controlado pela União Soviética, os únicos filmes produzidos, pelo menos até 1953, ano da morte de Stalin, foram newsreels (cine-jornais) ou ficções (na verdade russas) cujo escopo era mostrar como a Lituânia havia se adaptado às regras soviéticas.


Três Dias, filme que tornou o diretor reconhecido

A primeira geração de diretores que tiveram um certo espaço para propor um cinema pessoal é, portanto, a que passou a dirigir filmes após o ano de 1953. Neste momento a produção cinematográfica direcionou-se em dois ramos distintos: de um lado, para um cinema voltado para o universo infantil, evitando assim o risco da censura; e de outro lado, para um cinema voltado a uma identidade nacional apesar da censura. Tratavam-se de documentários que, através de seus autores, tornaram-se um dos testemunhos mais precisos da história lituana. Até 1990 foram produzidas 7 ficções, 40 documentários e 3 animações. Algumas ficções conseguiram exprimir, de alguma forma, a identidade do país; porém, o financiamento desses filmes vinham da União Soviética e estavam vinculados à aprovação de Moscou. Após a independência, deu-se início a novas formas de financiamento que permitiram o desenvolvimento da indústria cinematográfica, não mais submetida a União Soviética, mas a produtores locais e estrangeiros. O mercado cinematográfico então abriu-se às co-produções, promovendo o cinema lituano no exterior e  abrindo ainda mais possibilidades de financiamentos. Com a entrada da Lituânia na Europa, os financiamentos estatais, que na realidade eram insuficientes para sustentar o cinema nacional, foram reforçados com as ulteriores co-produções com países estrangeiros, fazendo com que o cinema do país tivesse visibilidade nos festivais europeus mais significativos: Cannes, Veneza e Berlim. Desta forma, os primeiros filmes de Sharunas Bartas, Arunas Matelis e Audrius Stonys  tornaram seus autores notoriamente conhecidos na Europa.

A Casa, que também conta com participação do cineasta Leos Carax

Sharunas Bartas foi um dos diretores mais produtivos das últimas décadas. Seus filmes são o maior exemplo do cinema reflexivo e filosófico, uma das principais características do cinema lituano. Trata-se de um cinema que tende a abandonar as referências concretas à realidade para direcionar os personagens a um universo quase exclusivamente emotivo, descrevendo seu destino sombrio com uma atmosfera que dispensa os diálogos e as referências temporais. Na realidade, a ausência de diálogos, os longos planos-sequência, as imagens paisagísticas e o ritmo lento são características de um cinema que opta por privilegiar as sensações emotivas e visuais através da pureza da imagem. A Europa conheceu o cinema de Bartas através de suas participações em festivais; Três Dias (Trys dienos), de 1991, foi indicado ao European Film Festival, Poucos de Nós (Musu nedaug / Few of Us), de 1996, foi premiado em Berlim e A Casa, de 1997, apresentado em Cannes. Mas o trabalho do artista ainda continua desconhecido fora desses circuitos, principalmente por distanciar-se da lógica comercial, que não vai de encontro com um cinema caracterizado também por sua obscuridade.


O contemplativo Poucos de Nós

Outro marco na carreira do diretor é o filme Corredor (Koridorius), de 1994, que se passa inteiramente dentro de um condomínio decadente, mas Sharunas encontra seu verdadeiro sentido do lado de fora daquelas paredes e daquelas janelas quebradas, lar de um pequeno vândalo que aponta seu rifle que não atira mais, lar de pensamentos daqueles que não conseguem mais se lembrar nem amar. Ninguém fala pois não há conteúdo a ser expresso, a realidade existe simplesmente porque a vida ainda não acabou, os corpos ainda estão de pé porque há um pouco de energia a ser consumida. Com este filme, Sharunas Bartas retoma a poética reflexiva de Três Dias para convertê-la em uma forma original de realismo artístico: uma visão quase musical, que marca o tempo mentalmente, com um ritmo apático e sonolento que faz da inutilidade poesia. Obras como esta e como Poucos de Nós, filmada integralmente na exuberante e impiedosamente maravilhosa paisagem siberiana, configuram o autêntico e, de certa forma, “obsceno” delírio que o diretor tanto procura através de suas imagens vivazes. Em primeira instância, nada de significativo parece ocorrer de forma eficaz: uma estrutura fílmica dominada e permeada por uma imobilidade quase paradoxal; inenarráveis os infinitos planos-sequência repletos de um silêncio ensurdecedor, caracterizados por esporádicas, aparentemente privadas de construção, aparições e reiterações gestuais resultantes das imperceptíveis (des)humanidades ali representadas; o todo revirado e transportado às próprias extremas e regenerativas (ou perigosas) consequências. Um mundo onde parece não existir um deus ou qualquer traço de humanidade.

Koridorius

Desta forma, quem conhece o cinema de Sharunas Bartas não poderia ficar menos surpreso com seu último filme, Renegado do Leste (Indigène d’Eurasie), de 2010, no qual o diretor trilha o caminho do noir sem perder de vista seu modo de apresentar as coisas, mas dessa vez com diálogos e ações. Uma novidade, levando em conta que em seus filmes precedentes praticamente não existem diálogos ou ações, ou se há uma ação, esta é um lento processo. Seus personagens falam pouco, mas conseguem fixar a atenção do espectador na tela enquanto este observa o vazio. Não dizem um palavra, nem mesmo um aceno. Às vezes tentam, como no filme Liberdade (Laisve / Freedom), de 2000, mas não conseguem compreender-se por falarem idiomas diferentes – como se “falar” naquela situação para nada servisse, clara alusão nostálgica à impossibilidade de um diálogo entre Lituânia e União Soviética. Como se tudo já tivesse sido dito e as palavras não fossem suficientes para explicar a enorme dor de viver, o vazio da existência, a apatia e a desilusão na qual se encontram, seus personagens animam-se apenas quando há uma festa, ocasião na qual bebem, embebedam-se e cantam. São personagens presos em si mesmos, dominados por uma profunda tristeza, sem a esperança de que as coisas possam melhorar, tanto por não fazerem nada para mudá-las, como por permanecerem indiferentes ao que se passa ao redor. Em todos os seus filmes predominam a traição, o egoísmo e a covardia, elementos brilhantemente fotografados pelo diretor, testemunha silenciosa dessa miséria humana.


Liberdade, um dos poucos filmes de Bartas onde o diálogo é essencial, porém não da forma esperada

A natureza, por sua vez, é a protagonista: sempre potente, exuberante, forte, hostil e onipresente. O diretor prefere filmar no campo, com ou sem neve; ou cidades cinzas e repletas de chaminés, fumaças de incêndios e fábricas, locais onde a miséria e o abandono são evidentes em toda parte, assim como periferias, casas populares, bunkers subterrâneos, pátios e ruínas – tudo para descrever a realidade de lugares onde o tempo parece ter parado. Bartas retarda a narrativa para mergulhar o espectador na atmosfera dos restos de um esplendor que nunca existiu. Raramente há música para enfatizar uma ação em seus filmes, não há necessidade. Em Liberdade, por exemplo, a trilha sonora é o barulho ensurdecedor do oceano. Há música somente quando há uma festa, onde alguém toca (característica presente em muitos de seus filmes) ou em situações bem particulares. Muitos filmes são ambientados em casas praticamente em ruínas, com móveis velhos e paredes manchadas pela umidade, papéis de parede sujos e rasgados, ou uma cama que parece não ter os lençóis trocados há semanas, fazendo com que o espectador quase consiga sentir o odor da degradação.


Renegado do Leste, um de seus filmes mais acessíveis

Mas o cinema de Sharunas Bartas não é apenas esteticismo puro ou o prazer da imagem pela imagem. Em seus filmes, o enquadramento torna-se o único e verdadeiro espaço no mundo do diretor, razão pela qual o cuidado com a imagem, através de seus elementos de percepção (a luz, o som, a disposição plástica dos elementos), torna-se prioridade absoluta. O cinema de Bartas é um cinema de sensações, no qual os próprios personagens encontram-se privados de vida concreta, para serem deixados a mercê de suas próprias percepções. E se cada enquadramento dá ao espectador a sensação de tender a lugar nenhum, é porque, para Bartas, este é o único cinema capaz de mostrar os personagens como ele os enxerga: uma viagem nas profundezas do espírito humano que apenas os grandes diretores são capazes de descrever com frieza, lucidez e honestidade.