[Curta] La Jetée

2012 - jun Postado por Pietro Milan Nenhum comentário

Vinte e oito minutos apocalípticos. Uma história de viagens no tempo na qual a tragédia pessoal colide com o destino da humanidade. Tudo narrado em uma voz em off que guia o espectador através de uma sucessão de fotogramas fixos gravados em película de 35 mm preto e branco. Definido pelo autor Chris Marker como uma fotonovela, La Jetée é na verdade um estranho híbrido metatextual que mistura cinema, narrativa, documentário e fotografia, um experimento único que nada tem a ver com as fotonovelas populares nos anos cinquenta. O filme do diretor francês é ambientado em um indefinido futuro próximo no qual a terra devastada por uma Terceira Guerra Mundial foi contaminada por um holocausto nuclear onde os poucos sobreviventes conseguem sobreviver apenas em galerias subterrâneas como ratos no subsolo de uma Paris reduzida a ruínas. Neste cenário, alguns cientistas procuram uma solução para a catástrofe já ocorrida através do único caminho deixando em aberto, o tempo.

Em La Jetée, um homem, um “herói” sem nome, prisioneiro depois da derrota na guerra é submetido a dolorosos experimentos que, através de contínuas injeções de drogas deveriam levá-lo para o passado unicamente através de sua mente. O homem, escolhido por sua grande capacidade imaginativa, recorda com clareza um episódio de quando era criança no período pré bélico: a plataforma do aeroporto de Orly, o rosto de uma mulher, um homem que corre e depois cai morto. As drogas injetadas pelos cientistas que sussurram em alemão escorrem dolorosamente em suas veias e as imagens começam a se suceder, uma após a outra, primeiramente tão concretas como uma miragem no deserto, mas gradualmente, o passado começa a tomar forma, tornando-se assim o presente do viajante. “No décimo dia, as imagens começaram a fluir como confissões. Uma manhã tranquila, um quarto tranquilo, um quarto de verdade. Crianças de verdade, pássaros de verdade, gatos de verdade, túmulos de verdade.” O homem é oprimido pela matéria que se concretiza em um tempo de paz, o qual existia somente através de recordações de infância, e da mesma forma na qual afloram as recordações, este mundo começa a surgir: do interior do viajante, como de fato, uma confissão.

Como confissões“, ou como uma íntima certeza guardada e escondida no seu interior. E ao externar a verdade interior, as imagens que fluem da mente do viajante se tornam a concreta realidade externa. O mundo de paz não é mais apenas uma recordação, mas real e concreto em toda sua banalidade feita de quartos, crianças, pássaros, gatos e túmulos. Um banalidade que evoca a emoção de quem se lembrava delas apenas como uma distante recordação. Desta forma, na dinâmica entre realidade interna e realidade externa, entre a variedade das recordações e a variedade da experiência, a imaginação criadora dá a luz um mundo perdido enquanto os sussurros ao fundo fluem ciclicamente através de uma frase em alemão quase como um mantra que os cientistas repetem e que se arrasta para o novo mundo. Esta é uma clara crítica à fracassada e paradoxal ideologia do regime de Vichy, que Marker introduz na obra delineando a relação vencedores/vencidos como cientistas/cobaias, ou melhor, sujeito/objeto em um equilíbrio desbalanceado em relação aos primeiros, que queriam induzir o nascimento do novo mundo através de um trabalho penoso para as vítimas e derrotados.

A representação alegórica do regime alemão na França durante a Segunda Guerra mundial e a ideia de recurso dos eventos históricos não limita as possibilidades de La Jetée, como também não a insere em um discurso filosófico que atravessa toda a história do pensamento ocidental, mas confere a Marker um polissêmico e multifacetado estrato cultural do qual emerge com força a ideia produtiva que o diretor faz da imaginação. Acentuando, de fato, as principais características que atribuía à imaginação de Sartre, com quem Marker havia estudado filosofia. O diretor francês encena o teatro da consciência, a força que emerge de tais atos não somente conectados à realidade do pensamento, como também ao mundo externo, podem aniquilá-lo ou regenerá-lo.

Mas agora a destruição e a gênese dos mundos imaginados vai além do ato mental que os coloca enquanto existentes: a imaginação de Marker se mostra como uma ponte entre a existência do pensamento e a existência real externa que promove a torção de um sobre o outro espiralando os diversos ciclos através dos quais a película é estruturada. Da mesma forma,  Marker inclui o paradoxo inerente a qualquer conceito de viagem no tempo e se utiliza dele para fechar o mundo de em um circulo perfeito que aprisiona os personagens em um loop que não lhes permite nenhuma saída. A humanidade teve que esperar até os anos oitenta para que o físico teórico russo Nikolai Ivanovich Novikov anunciasse seu “Princípio da Auto consistência“, o mesmo que o diretor francês já demonstrava em La Jetée desde 1962, ou seja, a impossibilidade de modificar as acontecimentos do passado através de viagens no tempo.

A necessidade permeia o universo de Marker sem conceder nenhuma escapatória. A célebre citação do Vertigo hitchcockiano se encaixa nesse contexto. Mesmo que a viagem no tempo acontecesse tanto no passado quanto no futuro, não mudaria em nada a  liberdade do indivíduo, obrigado a determinar o próprio destino e o do mundo como ele é e não como seria. A frieza imperativa do silogismo temporal conduz implacavelmente o homem ao encontro de sua própria morte, uma morte já postulada e guardada na imagem que abria o filme, imagem que o homem vivamente conservava desde sua infância. É um labirinto circular este cósmico drama da memória no qual o homem é lançado em direção a sua morte a partir da coincidência de duas imagens, da colisão entre dois mundos. Kafka, Borges e Proust são os grandes escritores nos quais o diretor se inspira com esta obra para criar uma narrativa tão irregular como as ondas da memória.

Com o frieza do ritmo de um documentário as imagens se sucedem. A memória, na época de sua reprodutibilidade técnica, se articula em processos não muito diferentes das técnicas fotográficas que congelam um instante e um assunto e os objetivam como uma estátua ou um animal empalhado a serem admirados em um museu. As fotos, de fato, anulam o movimento espacial deixando o campo aberto para as mudanças temporais e suas conceitualizações até o inquietante êxtase de um piscar de olhos. Assim, até a relação do viajante com a mulher que encontra no passado se congela fotograficamente: “Eles estão sem memórias, sem planos. O tempo se construiu indolor ao redor de ambos. Suas únicas marcas são o sabor do momento que estão vivendo“. A imortalidade absorve tudo e se torna a personificação de uma vida assombrada por imagens. Marker vai ainda mais fundo na dissecação do nó “imagem e memória” no documentário Sans Soleil, de 1983, em uma reflexão em campo aberto sobre o homem e sua natureza social que se articula através da gramática da imagem/memória. Outra obra muito interessante do diretor francês que resulta em uma espécie de “teoria do esquecimento” com requintes nietzscheanos.

Como já dito, La Jetée de Chris Marker é um experimento único, uma nova forma de cinema que se vale do estilo do documentário para narrar uma ficção, e inspirou muitos diretores e artistas: Peter Watkins e seu interessante Punishment Park, de 1971; Werner Herzog, com Lessons of Darkness (Lições da Escuridão), de 1992, entre tantos outros exemplos do diretor alemão; Terry Gilliam com Twelve Monkeys (Os 12 Macacos), de 1995 e até James Cameron com seu exterminador do futuro. No campo musical, alguns videoclipes também se renderam ao fascínio de La Jetée, como Jump They Say, de David Bowie e In Fiction, do grupo post-metal Isis, para enfim chegar até Lung Boonmee Raluek Chat (Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas), do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul, vencedor do Palm D’Or no Festival de Cannes em 2010. A força da obra que Chris Marker nos entregou é perturbadora: em vinte e oito minutos que estruturam uma matéfora da consciência humana, ou melhor, uma matafora da condição humana na suspensão entre o sonho e a realidade, um pesadelo labiríntico onde não há escapatória.

AVALIAÇÃO:

E para finalizar, o curta, para que todos possam apreciar essa obra prima do cinema: