A gravadora britânica 4AD foi uma criação dos empresários Ivo Watts-Russell e Peter Kent, financiados pela Beggars Banquet Records, e rapidamente tornou-se um dos nomes mais consagrados na cena de música independente. Graças aos seus contratos com bandas e projetos musicais consagrados, como Cocteau Twins, Dead Can Dance, Clan of Xymox, entre tantos outros, seu nome é praticamente um sinônimo de liberdade artística aos músicos, que na enorme maioria das vezes, fazem um trabalho muito interessante e autoral. Kent foi dono da gravadora somente por um ano, e acabou vendendo sua parte para Watts-Russell, para em seguida inaugurar o selo Situation Two. Com o nome 4AD crescendo cada vez mais no mercado, Watts-Russell teve a ideia de reunir todos os nomes mais importantes que haviam contrato com a gravadora em um único projeto: This Mortal Coil.
Uma taverna escura, de plateia apática, apenas um homem de voz poderosa, presença marcante, acompanhado de sons que mais parecem ter surgido das últimas profundezas do inferno, mas soam como beleza paradisíaca em forma de canção para o ouvinte. Esse característico ambiente, que aparenta ter surgido em um film noir, trata-se de uma realidade frequente na carreira do multitalentoso Nick Cave. Nascido Nicholas Edward Cave, o terceiro de quatro irmãos, em Warracknabeal, na Austrália, seu nome artístico tornou-se sinônimo para gerações inteiras. Líder da banda Nick Cave and the Bad Seeds desde 1983, Cave também integrou projetos como The Birthday Party e Grinderman. Mas seus méritos não incluem só a música, e sim trabalhos como roteirista de cinema, autor de obras literárias, poeta, e ocasionalmente, atuação em certos filmes.
Em uma época marcada pela homogeneidade e pela superprodução em quase todos os setores culturais, alguns poucos projetos desse painel se desligam. Alguns justamente pela honestidade e originalidade de seu processo criativo ou por algum talento inegável que se sobreponha a qualquer mudança de teor no produto final. Ellie Goulding consegue aliar ambos aspectos com sua peculiar voz que torna suas letras, densas ou pop genéricas em certos momentos, algo verdadeiramente especial. Difícil descrever seu timbre, tom ou compartimentalização que os valha, mas a sensação que ela imprime às canções é sempre de algo ameno, quase pueril aqui, e um pouco mais obscuro ali, mas sempre com a afetação emocional pela melodia, pela inocência de uma criança ao lidar com um mundo que a circunda, alguém que lida pela primeira vez com algum término ou a esperança de tentar de novo.
A matéria de hoje é por conta do nosso amigo Jota Cavalcante.
Mais conhecido por seu grupo Antony and the Johnsons (nome que presta uma belíssima homenagem à Marsha P. Johnson), Antony Hegarty tem uma carreira consistente desde os anos 90, livre para aventurar-se em diversas áreas: é cantor, pianista, compositor, artista visual, performer e ativista. Dono de uma voz inconfundível, Antony é um artista único. Sua música é marcada pela justaposição de sua voz e seu piano, mas conta com seus Johnsons (frequentemente Julia Kent, Doug Wieselman, Jeff Langston, Maxim Moston e Rob Moose): são todos aqueles que já participaram de um concerto com Antony, que trazem consigo instrumentos e vez ou outra suas vozes, resultando num som com elementos de jazz, baroque ou chamber pop e música clássica, com arranjos de cordas intensos, delicados e comoventes.
Dreamy-freaky-dark synthpop. Melhor descrição não há para Shrines, o onírico debut do Purity Ring. “Cut open my sternum and pull my little ribs around you”, em Fineshrine, segunda faixa do álbum, já dá para ver casais mais afeitos a declarações histriônicas escrevendo essas palavras desse duo de Montreal para sua cara-metade. Com vocais doces de Megan James – não da mais fácil compreensão possível, o que acaba contribuindo para o efeito fugaz e etéreo do álbum -, envolvidos pela sonoridade densa e trabalhada de Corin Roddick e seus vocais intensamente processados, a capa enuncia a chillwavey atmosfera sedutora do grupo nessa estréia, realmente sugando o ouvinte com suas ânsias, medos e outras figuras obscuras.