Moonflux é um blog de cinema e arte criado por Pietro Milan e Bruno Colli. Nosso intuito é informar e facilitar o acesso a cultura para todos.

 

[Diretor] O Cinema Existencial de Manoel de Oliveira

2014 - abr Postado por Pietro Milan 0

Monumental e multiforme, o cinema de Manoel de Oliveira é caracterizado por um único tema de fundo: a reflexão sobre a condição humana e a necessidade incontrolável de “tornar-se senhor do caos que se é”. A citação nietzschiana, colocada pelo próprio diretor como epígrafe em Viagem ao Princípio do Mundo, filme de 1997, constitui uma ótima chave de interpretação para afrontar uma vasta filmografia, na qual o protagonista é sempre o ser humano sozinho diante do mistério da vida. Tema que o cineasta transforma em imagens através de metáforas inconfundíveis, como a estátua de Pedro Macau, protagonista do filme supracitado, símbolo do ser humano que, na mais completa solidão, carrega sobre as próprias costas o peso da existência; ou como na sequência de Acto da Primavera, de 1963, em que Jesus, no momento da sentença, traça uma espécie de caminho circular, demonstração da falta de um caminho alternativo, da impossibilidade de fuga.

 

[Filme] Os Demônios (1971)

2014 - abr Postado por Pietro Milan e Bruno Colli 2

Ken Russell, gênio extravagante e polêmico do cinema britânico, era um grande admirador do romance The Devils of Loudun de Aldous Huxley, por sua vez baseado em acontecimentos históricos: no século XVII, pouco tempo após a paz estabelecida depois da guerra das religiões na França (uma série de oito conflitos entre católicos e protestantes que devastaram o reino da França na segunda metade do século XVI), a cidade de Loudun, na França, embora atormentada pela peste, tornou-se um oásis de paz religiosa; o rei Luís XIII concedeu à cidade permissão para auto administrar-se e construir altas e simbólicas muralhas. O apreço pela obra de Huxley e pela peça The Devils, de John Whiting (por sua vez, também inspirada por Huxley), resultou na realização de Os Demônios (The Devils), obra cinematográfica baseada no texto literário e no teatral, estrelando Vanessa Redgrave como a perturbada Irmã Jeanne e Oliver Reed como Urbain Grandier, sacerdote que na vida real foi executado pela Inquisição. Reed havia colaborado anteriormente com o diretor em Mulheres Apaixonadas (Women in Love), primeiro filme britânico fora do meio underground a exibir genitália masculina.

 

[Diretora] Naomi Kawase

2014 - mar Postado por Pietro Milan 0

“Acredito que a imagem não deve ser a única coisa visível na tela, pois por trás dela existem tantos outros mundos para serem vistos. É por isso que no meu cinema tento ir além do enquadramento, por trás e ao lado dele. Tento simplesmente enquadrar os sentimentos que nascem por trás de cada imagem.”
- Naomi Kawase

Passado e futuro, dentro e fora, céu e terra, vida e morte. É o que o extraordinário cinema de Naomi Kawase continuamente tenta enquadrar: aquela insustentável leveza de um movimento que capta o ser humano imerso na natureza e a natureza imersa no ser humano: campo/contracampo contínuo no qual dissolvem-se totalmente os limites do antropocentrismo cênico inerente à cinematografia ocidental. Iniciando a carreira como fotógrafa, para somente mais tarde aterrissar no cinema, Naomi Kawase consegue, miraculosamente, capturar em seus filmes o êxtase do momento decisivo: um permanente e levíssimo “aqui e agora” que no cinema geralmente torna-se falsamente passado, mas que em filmes como Moe no Suzaku (já analisado no blog), Shara (Sharasojyu), A Floresta dos Lamentos (Mogari no mori) e Nanayo (Nanayomachi), é expandido e sublimado em um fluxo contínuo de ausência de tempo. Os filmes da cineasta, natural da outrora gloriosa e tradicional província de Yamato, poderiam ser resumidos em um único frame, em um piscar de olhos, em um respiro: sem a necessidade de nada a mais.

 

[Especial] Nová Vlna, Nouvelle Vague Tchecoslovaca

2014 - mar Postado por Bruno Colli 0

Movimentos cinematográficos sempre foram de importância vital para o desenvolvimento do cinema autoral e para consolidá-lo como arte. Do expressionismo alemão ao neorrealismo italiano, passando pelo kammerspielfilm e pela tradicional nouvelle vague francesa, cineastas sempre buscaram por novas formas de fazer cinema, inovando cada vez mais dentro de suas áreas, aperfeiçoando meros exercícios de estilo e tornando-os filmes completos, originais, longe de padrões convencionais, sempre inseridos dentro de um contexto próprio, mas jamais datados. O leste europeu, área tão desolada e ainda não descoberta por boa parte do ocidente, foi responsável por obras valiosas e respeitáveis do cinema desde seus primórdios. Países como Polônia, Hungria, Iugoslávia e todos os terrenos que formavam ou eram dominados pela União Soviética (Rússia, Ucrânia, Letônia, Lituânia, Estônia etc), tais como os países do Cáucaso, nunca deveram nada aos vizinhos ocidentais quando se trata de experiência cinematográfica. No entanto, esses países sofreram por anos nas mãos de governos opressores, ditatoriais, onde a liberdade de expressão era quase inexistente, e os opositores das autoridades eram imediatamente punidos com tortura, prisão, exílio permanente ou morte. Como uma afronta e um ato de repúdio, músicos, diretores, poetas, escritores e artistas em geral começaram a unir-se para expressar suas ideias através da arte. Dessa forma, cada um desses países obteve suas formas de se expressar e lutarem contra a opressão. A Tchecoslováquia foi um destes.

 

[Filme] As Pequenas Margaridas (1966)

2014 - mar Postado por Pietro Milan e Bruno Colli 0

Em 1966, o cinema da Tchecoslováquia (atuais República Tcheca e Eslováquia) estava passando por uma grande transformação. Influenciados pelo Devetsil, movimento artístico avant-garde nos anos 1930, e pelo sistema comunista totalitário que dominava o país na época, estudantes de arte e diretores trabalharam em obras no que foi consagrado depois como “o milagre do Cinema da Tchecoslováquia“: a Nová Vlna, ou Nouvelle Vague Tcheca. Essas obras foram conhecidas pelo surrealismo, humor negro e pela crítica velada à nação e à sua política, assim como o emprego de diálogos improvisados e atores não profissionais. Cineastas como Milos Forman, Jaromil Jires, Ivan Passer e Vera Chytilová foram essenciais na formação desse movimento. Esta última, além de um exemplo triunfal de uma mulher por trás das câmeras, dirigiu um marco histórico no cinema de seu país: As Pequenas Margaridas (Sedmikrásky).