[Álbum] The Cure – Disintegration

2012 - jul Postado por Pietro Milan Nenhum comentário

No longínquo ano de 1989, no crepúsculo de uma década musical entre luzes e sombras, na aurora de uma nova era cheia de angústias e contradições, aparecia nas estantes das lojas um disco com uma capa estranha e fascinante que, através da múltipla exposição de flores macabras, ou “do mal” (como alusão a amarga poesia de Charles Baudelaire), sobre um fundo verde escuro, como de uma água turva e gelada que filtrava o sorriso sarcástico e o olhar intenso de um dos personagens mais carismáticos da música pop.

Um olhar que havia atravessado toda a década, dilatando as pupilas nas sombras do post-punk em sua estreia com Three Imaginary Boys, olhando para o obscuro abismo gótico com Seventeen Seconds, Faith e Pornography e procurando lampejos de luz com Japanese Whispers e The Top, até a reviravolta pop com The Head On The Door e Kiss Me Kiss Me Kiss Me.

Em 1989 o The Cure já não era mais uma banda obscura, mas sim uma banda famosa que lotava os estádios e contava com um público amplo e variado, dos apaixonados pelo rock e post-punk aos ouvintes do pop mais genérico, do gótico sombrio ao mais descompromissado dos fãs, graças a músicas como In Between Days e Just Like Heaven. Era então o momento para uma nova mudança, um novo começo, fundindo a obscuridade dos primeiros álbuns com a maior fluidez da fase sucessiva.

Momento para destruir, ou melhor, desintegrar o passado. O título do novo álbum, portanto, já esclarecia por si só as intenções de uma obra que entraria para a história do rock como um dos álbuns mais controversos da discografia do grupo: adorado por milhões pelo sensível romantismo pungente e esnobado por outros que o consideravam muito pretensioso e “comercial”. Mas Disintegration é uma obra suntuosa e fascinante, melancólica e outonal (ironicamente lançada em plena primavera), intensamente desesperada e desesperadoramente intensa.

Disintegration é um álbum conceitual, um clássico daqueles em que as músicas estão intimamente ligadas umas as outras formando uma obra única que, para ser compreendida e apreciada, precisa ser ouvida por inteiro. O disco não é uma simples coletânea de músicas pop, mas sim um percurso catártico e purificador, uma atormentada descida no próprio inferno pessoal a procura de uma luz que, talvez, chegará somente no final da viagem. O álbum foi produzido pelo próprio Robert Smith em colaboração com David M. Allen (que já havia trabalhado  com ícones dos anos 80 como o The Sisters of Mercy) e foi lançado pela Fiction Records. Agora os “three imaginary boys” do início se tornaram um quinteto, mas a line-up da banda é, de fato, muito parecida com aquela já experimentada em The Head On The Door e Kiss Me Kiss Me Kiss Me, com Robert Smith no vocal e guitarra, Simon Gallup e seu baixo inconfundível, Porl Thompson na guitarra, Boris Williams na bateria e o novo integrante Roger O’Donnell que, de fato, foi chamado para substituir um dos fundadores da banda no teclado, Lol Tolhurst, citado nos créditos mas já fora do The Cure no lançamento do disco.

Disintegration se abre com Plainsong, que nas primeiras notas já é uma declaração das intenções do álbum: grandiosa, desesperada, a começar pela intro instrumental de dois minutos e quarenta com um tom quase orquestral e as nuances persuasivas e carregadas de refinados efeitos sonoros que abrem progressivamente espaço para a voz inimista de Robert Smith, com uma letra sombria e romântica ao estilo gótico, longe das “tentações” de Pornography, mas demonstrando ter aprendido bem as lições do pop dos anos precedentes. A viagem continua com Pictures Of You, uma das melhores do álbum. Melancolia e nostalgia em sete minutos e vinte e oito segundos milagrosamente bem equilibrados entre o pop, goth e guitarras psicodélicas. Se Plainsong era a anunciação da dor, Pictures Of You é um retrato da melancolia e da dor por uma pessoa que talvez nunca tenha existido.

Pictures of You

Lovesong, escrita por Robert Smith para a mulher e single de enorme sucesso nos Estados Unidos é a música mais estranha à atmosfera do álbum, com seu tom inequivocamente pop, porém, ainda mantendo uma forte veia melancólica. Last Dance, faixa aparentemente simples, mas na verdade extremamente sugestiva em suas colorações post-rock, que parecem sair diretamente dos primórdios dos anos oitenta, é uma das duas canções que foram excluídas da versão vinil do álbum, presente apenas no CD (a outra é Homesick).

Lovesong

Last Dance abre as portas para a célebre e conhecidíssima Lullaby que, embora seja uma das menos interessantes do álbum, é extremamente cativante e sugestiva, faz alusão ao universo infantil e aos sonhos povoados por pesadelos. Criada a partir de um conjunto de ritmos hipnóticos onde Robert Smith sussurra cada estrofe, uma voz que nos faz recordar o quanto, universalmente, somos no fundo apenas crianças amedrontadas. A jornada continua com a raivosa Fascination Street, um dos singles que originalmente encerravam o primeiro lado da versão em vinil.

Lullaby

(a versão do clipe possui uma bateria horrível, ouçam a do álbum que é bem melhor)

Com a segunda parte do álbum, a atmosfera se torna ainda mais pesada e sugestiva: Prayers For Rain é uma oração tensa e desesperada que procura na chuva a catarse. Um banho purificador que possa redimir uma vida reduzida a total negação de si mesmo. Claustrofóbica e massacrante como poucas, aqui o retorno à dark wave dos primeiros anos da banda se faz por completo. E a chuva finalmente chega com The Same Deep Water As You, que se abre com o estrondo de um trovão distante e o chiado da chuva continua como esperado. Talvez uma das músicas mais tristes de todo o álbum, Robert Smith parece cantar quase que em câmera lenta, como um lamento solene e triste.  Quando a chuva termina dá lugar a ira: Disintegration, a faixa título do álbum com seu ritmo implacável e épico, narra a raiva impotente que acompanha a desintegração literal de uma relação, o turbulência interior que a separação de um casal inevitavelmente comporta. Mais rítmica, condensada e agressiva que as demais, traz consigo as mesmas sombras de auto destruição, tristeza e solidão das anteriores.

Disintegration (Live)

A catarse necessariamente envolve a destruição e a reconstrução, e finalmente a purificação se completa através da melancolia assustadora de Homesick, uma balada de tristeza e nostalgia, mas também de paz, e talvez, a reconquista da serenidade. É bem significativo, neste sentido, que Untitled seja a única faixa quase luminosa do álbum, um pálido raio de sol que atravessa as nuvens para dar origem a uma nova esperança. Não é por acaso que a música não tenha um título, transformando-se em uma espécie de página em branco aberta para o futuro, sobre a qual cada um poderá escrever uma nova história.

Homesick

Assim se encerra o último grande álbum do The Cure. A banda inglesa continuou seu caminho com resultados mistos até os dias de hoje. Em 2000, Robert Smith afirmou que o novo álbum Bloodflowers foi a terceira parte de uma espécie de “trilogia obscura”, iniciada em 1982 com Pornography, seguida de Disintegration. Para reiterar a fita vermelha que ligaria os três álbuns, em 2003 foi lançado um DVD live, intitulado não por acaso, Trilogy, que agrupa toda a escalada dos três discos. Mas independente dos trabalhos precedentes ou sucessivos, Disintegration é uma obra atemporal, dificilmente classificável, que ganhou desde seu lançamento e a cada ano que passa um grande número de fãs conquistados pelo épico romantismo que escorre como chuva de outono pelos sulcos das doze magníficas faixas que compõem o álbum.

AVALIAÇÃO:

E para quem quiser ouvir essa obra prima na íntegra, disponibilizamos o álbum inteiro para audição no widget logo abaixo: