[10 Indicações] Filmes de 2012

2012 - dez Postado por Pietro Milan e Bruno Colli 3 comentários

Comparado a 2011, esse ano não obteve tantos lançamentos acima da média. Mas aqueles que se destacaram, o fizeram com maestria. Nessa lista, selecionamos nossas dez indicações de filmes lançados em 2012, que todo fã de cinema deveria assistir para descobrir experiências cinematográficas contemporâneas incríveis. Em nossa lista, optamos por não classificar os filmes como melhores que outros, mas sim indicá-los por ordem alfabética.
Observação: Filmes que foram lançados no Brasil somente em 2012, mas já haviam sido lançados internacionalmente no ano anterior, não foram considerados para a lista.


THE ANGELS’ SHARE
(A Parte dos Anjos)

The Angels’ Share é um filme único, pois é capaz de unir a leveza do estilo da comédia mais brilhante, o heist film a outras temáticas nada leves. Ken Loach conhece muito bem a realidade que está relatando e não a coloca em momento algum em segundo plano. O diretor deixa bem claro que ao espectador que o filme é uma “brincadeira” até  certo ponto: é possível rir, se divertir, mas a violência e a tragédia de uma Glasgow sem esperanças estão presentes o tempo todo, resultando em um filme que indaga a realidade com muita ironia e como todos os filmes de Loach, recheada com um teor melancólico e obscuro. Mais além da metáfora social e a critica a um microcosmo esnobe que gastam cifras exorbitantes para deliciar seus palatos, o que emerge no final é como o puro prazer de degustar um gole de whisky.

Esse filme possui análise completa no blog, que pode ser lida clicando aqui.


CESARE DEVE MORIRE
(César Deve Morrer)

Cesare deve morire não é apenas Shakespeare, não é só a dor ou o poder de salvação da arte. Não se trata de mostrar o talento dos atores de seção de segurança máxima de uma prisão, se trata, na verdade, de mostrar o quanto a experiência daqueles que acreditavam não ter mais esperança possa ser útil para quem realmente está em uma cela, mas também, se não ainda mais, para quem está do lado de fora. O filme se encerra com uma convicção muito clara: nenhum homem, como dizia Pasolini, pode se considerar inferior a si mesmo ou qualquer outro. A vitória no Festival de Berlim, ainda que contestada pelos críticos locais, é a vitória desta idéia em si, e não apenas de um filme refinado e indestrutível.

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DUPA DEALURI
(Além das Montanhas)

Voichita e Alina cresceram juntas em um orfanato até a idade adulta. Posteriormente, a primeira foi aceita em um mosteiro ortodoxo e a segunda por uma família adotiva, logo após partindo para a Alemanha. Agora Alina está de volta para levar consigo a amiga, a única pessoa que amou e por que foi amada. Mas Voichita não se mostra muito inclinada a abdicar de sua vida religiosa. Alina então decide passar um tempo no mosteiro para convencer Voichita a mudar de ideia. As consequências serão impensáveis e trágicas. O diretor romeno Cristian Mungiu obteve reconhecimento internacional com 4 luni, 3 saptamâni si 2 zele (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias), que lhe valeu uma aplaudidíssima Palma de Ouro no Festival de Cannes 2007. De seu celebrado predecessor esta última obra, que mais uma vez não voltou de Cannes de mãos vazias, vencendo os prêmios de Interpretação Feminina e Roteiro, divide a estrutura central: Duas protagonistas femininas ligadas por uma solidariedade com contornos imprecisos, uma ambientação (humana e cenográfica) sufocante e hostil e uma figura masculina forte e autoritária. Mas as semelhanças acabam aqui e Dupa Dealuri segue um caminho ainda mais tortuoso. Percorrendo as evidências do romance da escritora Tatiana Niculescu Bran, que por sua vez se baseia em uma história ocorrida em um mosteiro romeno que chocou a opinião pública, Mungiu interroga sobre as consequências de uma escolha, deixando claro o quão restrito pode ser o livre arbítrio quando sobre ele recaem questões culturais.

A crítica à ideologia religiosa é clara e evidente em seu fundamentalismo ceticista e ignorante é evidente, mas o diretor sabiamente deixa com que os fatos falem por si e evita transformar a estória em um eterna procura por culpas e culpados, assim como evita, a nível cinematográfico, tons dramáticos e melodramáticos, assim como uma impiedosa observação sobre a hipocrisia da laicidade e do humanismo de fachada das instituições públicas representando uma sociedade cultural e humanamente à deriva, impermeável ao conceito de individualidade, paralisada pela insensibilidade do Estado. Magnificamente fotografado, marcado pelo longo suspiro do plano-sequência, com um predileção por planos médios que cravam os personagens em um ambiente que os penetra, os define e inexoravelmente os condiciona, intervalados pela angustia da câmera de mão, que muitas vezes parece traçar os paços dos personagens, Dupa Dealuri possui uma direção rigorosa que não faz uso nem mesmo de rilha sonora. A austeridade e a duração do tempo pode ser uma barreira para alguns, mas aceitada esta condição, percebe-se até mesmo pequenas pitadas de um refinado humor que fazem do filme de Mungiu um dos melhores de 2012.

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HOLY MOTORS

Holy Motors demonstra a genialidade e o talento de Leos Carax, e também sua profunda melancolia. Um filme tão surrealista, e ao mesmo tempo, tão humano. Diante de tanto êxito, não é exagero dizer que é o melhor filme de 2012, e de longe, seu melhor trabalho. Há muito tempo não se via um filme como Holy Motors, capaz de introduzir seu próprio gênero através de tantos outros, resumindo – em ao menos uma de suas facetas – a condição humana de se perpetuar mecanicamente sempre da mesma forma. Como motores, “motores sagrados”.

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LINHAS DE WELLINGTON

1810, o exército anglo-potuguês do general Wellington derrota as tropas francesas do marechal Massena nas montanhas de Buçaco, mas precisa retirar-se do local porque o inimigo é superior numericamente. O plano é atrair os franceses para Torres Vedras, onde Wellington secretamente contruiu um série de linhas fortificadas. Todo o país é convocado a abandonar suas casas e partir para as linhas, deixando deserto as demais regiões do país para que o inimigo sem provisões. Soldados, senhoras idosas, prostitutas, crianças, órfãos, clérigos, espiões, escritores e ladrões: todos re (unidos) por uma guerra que irá decidir quem irá viver ou morrer.

Preparado por Raúl Ruiz antes de morrer, o filme de Valeria Sarmiento, sua esposa e mondadora, se assemelha aos do marido em algo não visível, mas perceptível ou pela nostalgia de algo que nunca existiu, que define o caráter íntimo nacional, assim como pela composição de diferentes planos de profundidade, questionando a linearidade do tempo. Valeria não o faz a nível formal, mas a nível narrativo, passando do coletivo ao individual com uma rara habilidade. Linhas de Welllington conta com um elenco de peso que inclui John Malkovich, Catherine Deneuve, Chiara Mastroianni, Isabelle Huppert, Marisa Paredes, Michel Piccoli e Melvil Poupaud, mas peca por não desenvolver todos os seus personagens de forma satisfatória assim como por uma certa confusão de estilo. De qualquer forma, é um grande filme e uma grande homenagem a um grande diretor.


MEKONG HOTEL

O confronto entre os dois países, a fuga dos tailandeses e laocianos para a França, a educação militar dos jovens tailandeses nos anos setenta e essa transmissão de memória, tornan-se o terreno para um cinema que ainda acredita reinvenção dos sistemas fechados e as esquematizações do gênero documentário/ficção. Dentro e fora, na passagem das diversas dimensões, Apichatpong Weerasethakul procura relacionar-se com um mundo material esquivo e misterioso: a calma do rio, o sangue dos vampiros. O cinema de Joe é tempo e movimento, a invenção de um novo olhar sobre o mundo.

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PARADIES: LIEBE
(Paraíso: Amor)

Como em Hundstage (Dias de Cão), Ulrich Seidl, na verdade, ataca ferozmente seus próprios compatriotas, retratados em suas contradições mais explícitas e visualmente grotescas. Teresa se deixa levar por paixões fugazes, em sua maioria frustradas pela incapacidade física de seus amantes em satisfazer seus verdadeiros desejos. Em uma das cenas iniciais, uma estereotipada pintura de um paraíso tropical aparece nas paredes de uma pista de carrinhos de batida. Quase um prelúdio para a felicidade de papel machê que Teresa conquistará enquanto caminha pelas praias quenianas, como um carrinho de batidas desgovernado, à procura de um horizonte que cada vez mais se distancia inexoravelmente.

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PIETÀ

É possível afirmar que Pietà é a maior e mais autoral de realização de Kim Ki-duk desde Bin-jip, de 2004. São os pequenos elementos introduzidos e retratados, que juntos, enriquecem aquela que poderia ser somente mais uma história de violência e vingança típica do cinema sulcoreano. Pietà segue diretamente na direção oposta, nos questionando se tudo isso valeu mesmo a pena. A pergunta é respondida, da forma mais inesperada, melancólica e niilista possível, permitindo que o espectador reflita por um bom tempo após o término do filme.

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VUOSAARI

Mais recente longa metragem do finlandês Aku Louhimies (mais conhecido por seu Paha Mäa, ou Zona Mortal em português), onde o cineasta novamente explora a temática de vidas paralelas na fria e apática Finlândia, mas dessa vez, concentrando-se nos habitantes de um único distrito, que dá nome ao filme: Vuosaari. Pessoas comuns que poderiam viver suas vidas de forma normal, mas que por diversos motivos, são impedidos de alcançar a felicidade. Um casamento infeliz, um jovem imigrante que é humilhado por sua esposa exigente e brutalmente espancado por seu agiota, uma mãe solteira portadora de câncer, um pai fisiculturista durão que exige que seu filho seja como ele, uma garota desesperada para sair do anonimato, uma criança que sofre nas mãos de uma mãe repressora e tem como único companheiro seu cão. Nenhuma dessas pessoas se conhece, mas todas elas compartilham a insatisfação pessoal e a crueldade humana diariamente.

Diferente do que certos cineastas tão aclamados por retratar sofrimento de forma tão sincera enquanto o intuito é o completo oposto, Louhimies não apresenta nenhum prazer em demonstrar o sofrimento dessas pessoas. A melancolia está presente e aparentemente não há salvação para nenhum deles – tudo dará errado e isso é inevitável. Porém, diferente do que o característico cinema finlandês costuma oferecer, Vuosaari nos apresenta uma história de esperança e otimismo por trás de tanta melancolia. O positivismo é demonstrado com sutileza e só atinge seu ápice quando menos esperamos, transmitindo a sensação de conforto e alívio; afinal, nem tudo está perdido no pequeno distrito de Vuosaari.

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ZHIT
(Vivendo)

Uma das maiores surpresas de 2012 foi o segundo longa metragem do cineasta russo Vasili Sigarev, Zhit (Vivendo; não confundir com a obra homônima de Yuri Bykov, lançada em 2010). Seu primeiro trabalho, Volchok, lançado em 2009, foi vencedor de três festivais e indicou mais um diretor contemporâneo seguindo o caminho certo. Tal como Vuosaari, mencionado anteriormente, Zhit também retrata vidas paralelas, porém de forma bastante distinta. Em Zhit, somos apresentados a um casal feliz, uma mãe de duas filhas gêmeas e um garoto vivendo num ambiente hostil, com seu padrasto apático e sua mãe agressiva, que o impede de rever seu pai verdadeiro. À exceção do garoto, nada parece estar errado, até o momento em que suas vidas mudam totalmente graças à única inevitabilidade de nossas vidas: a morte.

A fotografia belíssima, repleta de ambientes desertos e encobertos por neve, encaixam-se perfeitamente com a dor e a solidão que os protagonistas do filme são obrigados a suportar. A ironia do título se deve ao fato de Zhit questionar as manifestações dos efeitos da morte, quando causada de forma brutal e repentina, no estado psicológico de alguém. Pois, se a última que morre é a esperança, esta também se foi quando essas pessoas perderam seus entes queridos. E alguns buscam suportar suas dores como podem, da forma que conseguem encontrar dentro de suas mentes, agora dominadas pelo trauma e pela ilusão de que um dia poderão rever aqueles que amam. Definitivamente, Zhit não é um filme recomendado para aqueles que se encontram num estado de espírito abalado ou que perderam alguém próximo recentemente, Mas essa belíssima e bem executada obra de arte merece uma indicação para aqueles que apreciam filmes belos, carregados de melancolia, nas mãos de jovens cineastas que surpreendem cada vez mais em suas carreiras.


Nós desejamos a todos vocês, leitores, um excelente 2013, repleto de filmes, música, jogos e tudo do melhor que a arte e a cultura nos oferecem. ;)
Feliz ano novo!